Violência e cor da pele

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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Dizem alguns que este país era um jardim à beira-mar plantado, povoado por almas bondosas e benfazejas, até chegarem a nós imigrantes de peles escuras e de ainda mais escuras intenções, que nos trouxeram a violência e o crime, tão alheios à índole pacífica das nossas almas brancas.

Assim, quer os jovens que dos seus computadores magicaram, organizaram e prepararam ações criminosas em redes obscuras, sem a família dar conta, quer as famílias em que a violência doméstica pôde levar filhos a matarem as mães e pais a assassinarem, com alguma frequência estatística, as suas mulheres ou ex-mulheres, aí tratar-se-á obviamente de gente de outras terras e de outras cores, incapazes de assimilarem os valores de bondade e de inocência que definem o nosso povo como “portugueses de bem”.

Quando verificamos que a maioria dos crimes mais sangrentos e hediondos que se praticam entre nós vêm dos tais portugueses de bem (ainda que alguns possam ter suspeitas origens estrangeiras), a dúvida pode instalar-se nos nossos espíritos. Vender folhas de louro em vez de droga pode ser delito comparável a matar a própria mãe às facadas?

Mas há mais: os imigrantes olham gulosamente para as nossas mulheres. É evidente que os portugueses de bem baixam os olhos, com pudor, ao ver mulheres atraentes e não há memória de se ouvirem nas ruas dichotes sexualmente atrevidos, antes da desgraçada vinda dos imigrantes. É que, como escreveu (com ironia, diga-se) Pedro Homem de Mello: “Nós, portugueses, somos castos.” Não nos esqueçamos disto.

Mas outras revelações temos tido ultimamente, que nos obrigam a mudar os nossos paradigmas. Opondo-se às ideologias feministas, que querem fazer sair as mulheres daquele estatuto de “servidão voluntária”, que La Boétie admiravelmente definiu, antes reivindicando o sagrado direito de não ser livre, surgiram entre nós as formidáveis Mulheres Conservadoras, que se opõem livremente às liberdades conquistadas pelas mulheres, na linha do feminismo. Se eu sou livre para defender e votar em partidos que querem abolir as liberdades políticas, porque não hei de ser livre de me opor igualmente às liberdades de natureza moral?

Não sou homossexual e sou casado; mas incomoda-me que os homossexuais possam casar-se. Então eu não sou mais do que eles? Sei que há pessoas com problemas graves de definição sexual, mas como eu não os tenho, deixá-los sofrer, que são poucos (e aqui sou melhor do que o Hitler, que os mandava matar à nascença...).

E ainda temos os ciganos (que o Hitler também mandava matar à nascença...).

A maneira como arrepiantes discursos de extrema-direita têm vindo a banalizar-se e a correr em conversas tidas por pessoas de quem tal não esperaríamos, faz-nos temer o advento de uma sociedade mais estrita e repressiva nos costumes, menos liberal em termos sociais (para compensar o extremismo neoliberal na economia?) e voltada para um passado, que nós odiámos, mas eles não viveram.

Façamos tudo para contrariar esse futuro.

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