Nestes tempos de plataformas e algoritmos, qual o maior desafio que um crítico de cinema enfrenta? A pergunta, bem entendido, nada tem que ver com a estupidez corrente segundo a qual o exercício da crítica se esgota num tribunal sem recurso em que se impõe um juízo de “bom” ou “mau”. Não porque criticar seja alheio à formulação de valores, antes porque semelhante descrição menospreza a própria dinâmica do pensamento (crítico ou não) - pensar ou não pensar, eis a questão.Escusado será dizer que nada disto envolve qualquer descrição heróica do “crítico-de-cinema”. Aliás, aquilo que está em jogo é realmente transversal a todas as formas de reflexão sobre a arte e as produções artísticas. Encurtando razões, direi que, envolvendo tais questões, encontrei uma forma de consolo, de uma só vez intelectual e afetivo, num recente livrinho de Jérémie Koering (investigador e professor de História de Arte Moderna na Universidade de Friburgo), sobre As Meninas, de Diego Velázquez, um dos mais célebres quadros da história da pintura, datado de 1656. Como diz o título, trata-se de um inquérito: Enquête sur Les Ménines (ed. Actes Sud, Arles, 2025).. Na história do pensamento moderno, As Meninas é assunto de um texto lendário que serve de capítulo de abertura a As Palavras e as Coisas, essa “Arqueologia das Ciências Humanas” que Michel Foucault publicou em 1966 (relançado entre nós pelas Edições 70, em 2022, com textos introdutórios de Eduardo Lourenço e Vergílio Ferreira). De modo sucinto, diremos que Foucault sistematiza a questão fulcral, moderna por excelência, do modo como a imagem, na pintura e não só, pode convocar o olhar do espectador - lembremos, a propósito, que a década de 1960 foi também a idade de ouro da Nova Vaga cinematográfica.Referindo-se à presença de Velázquez, à esquerda do quadro, perante uma tela, escreve Foucault: “O pintor olha, com o rosto ligeiramente voltado e a cabeça inclinada para o ombro. Fixa um ponto invisível, mas que nós, espectadores, podemos determinar facilmente, pois que esse ponto somos nós mesmos: o nosso corpo, o nosso rosto, os nossos olhos.” . Esta colisão de olhares constitui o tema nuclear do livro de Koering: o nosso lugar de espectadores confunde-se com a presença “invisível” do próprio Rei, Filipe IV, que encomendou o quadro, ele que surge refletido, ao lado da Rainha, no espelho ao fundo do cenário. O pintor olha para o rei, enquanto este contempla a infanta Margarida e a sua entourage, ou seja, precisamente aquilo que nós vemos - ou ainda: o quadro As Meninas.Em sentido literal e metafórico, estamos perante um verdadeiro jogo de espelhos que nos ajuda a perceber a impostura corrente segundo a qual uma imagem (uma fotografia, um fotograma de filme, etc.) existe como reprodução imaculada de uma realidade passiva - só mesmo as câmaras de televisão parecem acreditar nessa transparência automática do mundo à nossa volta.."O quadro 'As Meninas' foi pintado por Diego Velázquez em 1656: em boa verdade, tudo nele fala para o nosso presente.”.Através de uma fascinante argumentação, misto de descrição e análise, somos levados a descobrir o modo como, com As Meninas, Velázquez colocou em cena (a expressão sugere uma curiosa teatralidade) a ambiguidade do tempo - vemos os gestos da situação, deciframos a origem simbólica dessa situação e pressentimos a sua vocação intemporal. Ou como, a certa altura, Koering recorda: “(...) Segundo antigas crenças, os espelhos tinham o poder de abrir indiferentemente para o passado ou o futuro.”