Há poucos anos, numa consulta no centro de saúde, a seguir às perguntas habituais “se fuma?”, “se bebe?”, perguntaram-me “se costuma jogar?”. Fiquei surpreendida com a pergunta – nunca me tinham perguntado. Explicou-me então a médica que a adição ao jogo estava a aumentar e que era uma preocupação grande de saúde pública. Infelizmente, desde então, a situação só piorou. Ao raspar frenético das raspadinhas – Portugal é o país onde mais se gasta em raspadinhas – e às horas a fio nas máquinas dos casinos, junta-se o mundo pernicioso e perigoso do jogo online.
Só em 2025, foram apostados online mais de 23 mil milhões de euros! São mais de 60 milhões de euros por dia! Mas estes não são os únicos números impressionantes. O número de registos de jogadores é de 4,9 milhões. Mais de um terço dos novos registos são de pessoas entre os 18 e os 24 anos. Estes números mostram-nos a dimensão do problema. Mas há mais.
É já possível uma pessoa autoexcluir-se de uma plataforma de jogo, para se proteger da tentação de ir jogar. Há 413.700 pedidos de autoexclusão. São 26,8% mais pedidos do que no ano anterior, o que mostra o número avassalador de pedidos de ajuda para conseguir não ceder a essa tentação.
Mas, apesar do peso destes números, todo o sistema está feito para promover o jogo. São angustiantes os relatos de ex-jogadores que se dizem enclausurados, porque onde quer que vão, onde quer que estejam, a publicidade ao jogo lá está. Desde a publicidade nas ruas – que ocupa fachadas inteiras de prédios –, ao nome de palcos em festivais, aos anúncios e patrocínios em programas de televisão, em eventos desportivos, em eventos culturais, até aos anúncios e chamarizes pop-up por todo o mundo digital. Até no meio das notícias sobre a dependência ao jogo aparecem anúncios a casinos online! Esta omnipresença da promoção do jogo tem consequências muito sérias na vida das pessoas, das famílias e na saúde da nossa sociedade.
Há um ano, o Livre apresentou no Parlamento várias propostas para regular a publicidade ao jogo e os patrocínios por casas de apostas, para restringir o incentivo ao jogo por parte de figuras públicas e influencers, para limitar os locais de acesso ao jogo e para criar um programa nacional, incluindo campanhas, que alertasse para os riscos de adição ao jogo. Depois de meses de discussão, as propostas foram rejeitadas pelo lado direito do Parlamento, sem sequer uma tentativa de soluções de consenso que melhorassem a situação que hoje existe. E muitos dos argumentos apresentados eram os mesmos de quem, há uns anos, não queria limitar a publicidade ao álcool ou ao tabaco.
Com esta nova sessão legislativa que agora começa, voltamos a apresentar mais propostas para que a regulação do jogo e da sua promoção seja feita para proteger as pessoas. E um dia será inconcebível imaginar que um clube de futebol tivesse sido patrocinado por uma casa de apostas. Queremos que esse dia chegue mais cedo do que tarde.
Se sente que precisa de ajuda, ou conhece alguém que precise, contacte as linhas de apoio para pessoas com adição ao jogo: 1414 (ICAD) ou 968 230 998 (Instituto de Apoio ao Jogador).