Já lá vão os tempos em que esperava com curiosidade a publicação do volume anual da OCDE Education at a Glance, por causa da massa de informação contida e das comparações que permitia estabelecer entre a realidade nacional e a dos outros países participantes. A pouco e pouco fui percebendo as insuficiências de alguns dados usados em relação a Portugal e a forma como uma metodologia aparentemente rigorosa e objectiva podia conduzir a interpretações e conclusões enganadoras.
O caso dos salários tornou-se evidente a partir do momento em que começaram os congelamentos na progressão na carreira e os cortes durante os tempos da presença da troika por cá. A OCDE insistia em fazer comparações com os valores nominais dos salários em determinados pontos da carreira, ignorando a enorme diferença em relação aos salários reais (devido à carga fiscal e aos referidos cortes salariais de que alguns responsáveis se esqueceram ou atiram para o pacote messiânico da salvação nacional) e o facto das comparações usarem fases da carreira que não correspondiam à realidade.
Por exemplo, as comparações eram feitas com os salários nominais dos escalões correspondentes a 15 anos de carreira (formalmente seria o 5º escalão depois de 2007), quando a generalidade dos docentes estava, em regra, dois ou três escalões abaixo (no 2.º ou 3.º) após os congelamentos de 2005 e 2011.
E apareciam logo notícias, plantadas por diversa imprensa, a demonstrar que todas as queixas dos professores eram injustificadas e que até ganhavam mais do que os colegas de muitos outros países ou mesmo de diplomados nacionais em outras profissões. E não adiantava explicar que assim não era, porque a OCDE usava os dados enviados pelo Ministério da Educação dos salários brutos de escalões que não correspondiam ao tempo de serviço contabilizado. Era deprimente tentar explicar a pessoas, mesmo a “economistas” (com muitas aspas), que tratavam como ignorantes quem não alinhasse na narrativa oficial.
O tempo passou, o degelo parcial aconteceu, mas as comparações continuam a alinhar pelo simplismo dos valores salariais e posicionamentos nominais na carreira docente. Este ano não é excepção e já dei com notícias a afirmar que os professores portugueses ganham mais do que outros diplomados, embora isso surja agora associado de modo muito claro à manifestação de uma enorme insatisfação profissional. A figura 12 da página 46 do relatório deste ano mostra Portugal numa posição isolada quanto ao nível de insatisfação docente com a
remuneração e com as condições de trabalho. Apenas os japoneses estão menos satisfeitos um ou dois pontos percentuais, quanto às condições do exercício da sua profissão, embora se revelem mais satisfeitos com os salários. Os professores portugueses são, combinando as duas variáveis, os mais insatisfeitos de toda a amostra.
Quem conhece a situação nas escolas percebe esta atitude que gera uma enorme incompreensão em alguma opinião publicada, que insiste em não entender a sua origem e as razões da sua permanência que nenhuma medida isolada, mesmo a recuperação (integral para alguns) do tempo de serviço consegue apagar, quando o quotidiano escolar permanece sufocante, labiríntico e cada vez mais desprovido de sentido, sem qualquer mudança significativa.