Nos últimos anos, a política portuguesa tem dado sinais claros de transformação. A crescente fragmentação no eleitorado e a perceção de que as soluções tradicionais já não respondem a desafios sociais, económicos e ambientais complexos levaram muitos cidadãos a procurar alternativas. Embora o crescimento do Chega tenha sido amplamente discutido, reduzir esta procura de mudança ao fenómeno da direita radical é ignorar um movimento mais profundo: o desejo por respostas políticas inovadoras, locais, cooperativas e centradas no bem comum. Este é o desejo intrínseco do ser humano, que atualmente não acredita que “o sistema” seja capaz de o alcançar. E, por isso, surgem as narrativas de ódio, inveja, disputa racial e de classes que preenchem a frustração das populações, mas não lhes são o que verdadeiramente precisam.O Chega não é a única alternativa às expectativas dos Portugueses.Um dos exemplos mais marcantes dessa tendência emergiu nos Açores nas eleições autárquicas de 2025, onde o movimento Ponta Delgada para Todos (PDLPT) se destacou de forma surpreendente. A candidatura, liderada por Sónia Nicolau, apresentou-se como um movimento de cidadãos posicionados ao centro, agregando voluntários provenientes tanto da direita, como da esquerda - unidos não por alinhamentos partidários, mas por um objetivo comum: trabalhar por Ponta Delgada, pelo seu desenvolvimento sustentável e por uma governação orientada para o interesse coletivo.Usando como frase “Com Coragem por uma Ponta Delgada para Todos”, no manifesto lê-se que: “Esta candidatura é impulsionada pelo desejo de construir um concelho mais justo, inclusivo, sustentável e dinâmico, onde cada pessoa sinta que faz parte de uma comunidade que a valoriza. Com essa visão, propomos uma candidatura baseada em cinco eixos essenciais para transformar Ponta Delgada. Sendo eles: Desenvolvimento Humano, Qualidade de Vida, Sustentabilidade e Proteção Ambiental, Desenvolvimento Económico, Transparência e Poder de Decisão.”Esta candidatura, assente em princípios de diálogo, cooperação e governança participada, teve os seus resultados. Nas autárquicas, o movimento alcançou um resultado histórico: 26,07% dos votos (8003 votos), igualando o número de vereadores do PSD - que venceu com apenas 33,88% e perdeu pela primeira vez a maioria absoluta no município que liderava há mais de 30 anos. Assim, o PSD elegeu 3 vereadores, o movimento Ponta Delgada para Todos outros 3, a coligação PS elegeu 2 e o Chega elegeu apenas 1.A ascensão do PDLPT não foi apenas quantitativa. O impacto político foi imediato. A entrada de três vereadores independentes no Executivo obrigou a uma mudança estrutural na forma de governar a cidade. Mesmo após as eleições, o movimento reforçou a sua postura de responsabilidade democrática ao rejeitar uma mera distribuição de pelouros e ao propor, em alternativa, um Memorando de Diálogo - Servir Ponta Delgada para Todos, defendendo princípios como transparência, mérito, boa gestão pública e concertação entre forças políticas.A campanha eleitoral do PDLPT teve um custo aproximado de 31 mil euros, obtiveram donativos de cerca de 50 pessoas, tendo solicitado um valor de subvenção (reembolso) de 23 mil euros, quando a subvenção definida em lei para um partido que atinge 8003 votos é de 75 mil euros. Esta transparência dá o sinal que é preciso: não-abuso do sistema, todos participam e as contas são transparentes.O caso de Ponta Delgada é um sinal de esperança e de encorajamento. Mostra que grande parte da população portuguesa não procura apenas “protestar” nas urnas, procura também participar. Procura estruturas menos partidárias e mais cidadãs, menos polarizadas e mais orientadas para resolver problemas concretos: habitação, mobilidade, sustentabilidade ambiental, políticas sociais de proximidade, e a credibilidade das instituições. Evidencia também que ambicionar por um desenvolvimento sustentável pode dar votos quando a equipa que o defende é realista, conhecedora e transparente. Quando a equipa dá o exemplo.As recentes eleições presidenciais também suportam esta análise.Ao contrário da narrativa simplista que coloca o Chega como único canal da contestação política, Ponta Delgada demonstra que o descontentamento pode gerar propostas construtivas, centradas no território, na comunidade e na valorização dos temas ambientais que são a base do bem-estar das sociedades (veja-se a perda de PIB que vamos ter com as tempestades e a sua total ausência de antecipação). Demonstra também que a vontade de renovação pode organizar-se em movimentos que valorizam pontes, e não muros; pluralismo, e não tribalismo; soluções partilhadas, e não agendas de confronto. Acredito que a população portuguesa deseja ter sentimentos positivos, de coragem e empenho, e não sentimentos de ódio que só levam o país a uma desgraça maior.A maturidade democrática medese também pela capacidade de os cidadãos criarem alternativas responsáveis. E, nesse sentido, o movimento Ponta Delgada para Todos simboliza algo maior do que um resultado local: simboliza a prova de que há espaço - e há procura - por novos caminhos políticos em Portugal, mais participativos, mais colaborativos e verdadeiramente comprometidos com o desenvolvimento sustentável das comunidades, e que apelam ao sentimento de construção e de cooperação, e não ao sentimento de ódio e de medo que se espalha como o vírus, e que nada de bom traz ao país.