Every day my metal friend
Shakes my bed at 6 AM
Then the shiny serving clones
Run in with my telephones
Talking fast I make a deal
Buy the fake and sell what's real
Ah, what's this pain here in my chest?
Maybe I should take a rest
Era assim que começava o álbum dos Buggles de 1980 (The Age of Pastic) que continuava com a música (Video Killed the Radio Star) que se tornaria icónica de toda uma época e não apenas o arranque da MTV. Já então se anunciava uma idade de plástico que ia muito para além da denúncia do consumismo de produtos indiferenciados de baixa qualidade, numa sociedade onde o real vai desaparecendo, progressivamente trocado pelo sintético.
Ao ler as primeiras páginas de A Era da Pós-Profundidade de João Sevilhano (Edições 70 2026) veio-me de imediato à mente aquela referência pop muito geracional mas, logo em seguida, ocorreu-me algo menos ligeiro e mais preocupante, ou seja, como o que o autor descreve se adequa como luva feita à medida, ao Estado da Educação e Portugal desde o processo de tomada de decisões sobre novas políticas à sua apresentação pública, passando por um inexistente debate sobre as ideias subjacentes ao rumo adoptado, quando elas existem e não se resumem a meros chavões simplistas, tretas vazias de substância e com tantas certezas quanto é ténue a sua relação com a realidade.
“Num mundo de ideias plastificadas e sabedoria transformada em produto, falta admitir ignorância, suportar as perguntas se correr para as respostas, valorizar a acumulação lenta de compreensão, em vez da solução rápida da revelação comprada.” (Sevilhano, 2026, p 24)
Na área educativa escavaram-se trincheiras que tornaram quase impossível qualquer debate sério, a partir do momento em que as opções políticas se
passaram a apresentar como as únicas possíveis (ou eticamente aceitáveis, conforme o contexto), recorrendo a fórmulas com o atractivo de parecerem simples e de efeitos rápidos, ao mesmo tempo que, quando pedida a sua fundamentação, se optou por um discurso desnecessariamente rebuscado, pleno de conceitos falsamente complexos e uma retórica grandiloquente destinada a atemorizar qualquer crítica.
Por outro lado, foi assumido o sinal de fraqueza qualquer admissão de responsabilidade por erros ou previsões mal feitas, culpando-se sempre terceiros ou uma malfadada conjuntura ou nas circunstâncias, fossem as contas públicas, a troika, a pandemia ou uma caixa de agrafos. A humildade caiu em desuso. João Sevilhano qualifica como uma patologia do nosso tempo aquilo a que chama “síndrome da certeza”, que surge muitas vezes associada ao “teatro da confiança”, feito de “encenações elaboradas de suposto saber que mascaram ignorância fundamental” (p 45).
Quem não alinha por este “paradigma”, admite ou coloca dúvidas, recusando a inevitabilidade de uma “inovação”, “flexibilidade” ou “transição digital” plastificada deve ser afastado pela nova polícia do pensamento, pois falhou o espírito dos tempos.
They send the heart police
To put you under cardiac arrest
And as they drag you the door
They tell you that you've failed the test
In the bed I read my mind
Remember how the mice were blind
I watch them fighting in their cage
Could this be the Plastic Age?