As “depressões” que atravessaram o país nas últimas semanas tiveram naturais efeitos na rede escolar. Além dos estragos causados, revelaram até que ponto temos uma Educação mais do que dual quanto às condições em que trabalham alunos, pessoal docente e não-docente. O que resulta do modo assimétrico, casuístico e desarticulado como são feitos os investimentos e são alocados (na novilíngua do economês) os recursos na rede pública de Ensino, navegando ao sabor dos programas do momento, em especial dos que permitem cativar verbas europeias.Se é evidente que com fenómenos climatéricos extremos é impossível evitar um determinado nível de danos, não é menos verdade que é ridículo que, depois do faraónico investimento feito na Parque Escolar, tenhamos escolas intervencionadas há poucos anos a ver coberturas de pavilhões a voar e telhados a cair, como na Escola Secundária da Moita, onde fui aluno e me iniciei como professor. Com algum humor, um aluno dizia que, mesmo antes da depressão Kristin, todos os dias são uma surpresa, não se sabendo o que vai deixar de funcionar. Mas como este, há dezenas ou centenas de casos pelo país.País no qual é possível, contudo, continuar a encontrar investimentos muito avultados em equipamentos escolares, nomeadamente nos chamados CTE (Centros Tecnológicos Especializados), financiados pelas referidas verbas europeias em valores que chegam perto dos 500 milhões de euros. O que é certamente estimável e necessário para assegurar uma Educação de qualidade, se os equipamentos forem efectivamente usados e assegurada a sua manutenção e actualização, assim como é indispensável que as escolas que os recebem, estejam em condições de os explorar devidamente, em vez de os acumular em arrecadações improvisadas ou em salas que ficam desactivadas.O problema é que não temos qualquer garantia de um efectivo acompanhamento da aplicação e retorno deste investimento, bem como tivemos uma muito deficiente monitorização das obras da Parque Escolar, acerca das quais o Tribunal de Contas levantou sucessivas questões. Assim como não existem quaisquer garantias de que, com a descentralização de competências que passou a gestão de toda a rede escolar do Ensino Básico e boa parte da do Secundário para as autarquias, existam condições equitativas a nível financeiro para assegurar que não se agravam desigualdades cada vez mais notórias.Já não se trata de qualquer oposição/divergência entre as condições do ensino público e privado, mas sim da opção por desregular, chamando-lhe “flexibilidade” ou, de modo ainda mais hipócrita, “autonomia” ou “gestão de proximidade”, a rede pública de ensino, abdicando de qualquer preocupação de justiça social. Experiências desreguladoras deste tipo tiveram maus resultados lá fora, por muito que por cá tenhamos decisores preocupados em o ocultar. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico