Uma chapada belga em defesa do futebol

Pedro Sequeira

Editor-executivo do Diário de Notícias

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O caso Balogun é, sobretudo, uma situação grave e que merece ser investigada, ou não estivesse em causa uma tentativa, que até foi admitida publicamente, de reverter através de uma 'cunha' ao mais alto nível uma decisão tomada por um árbitro com base nos critérios disciplinares que ele e os futebolistas têm de cumprir. Mas este caso tem, ao mesmo tempo, um lado quase cómico quando se olha para as declarações de Donald Trump ao explicar porque telefonou ao líder da FIFA a pedir a anulação do castigo aplicado ao atacante norte-americano Balogun (expulso com um vermelho direto frente à Bósnia). Na visão do líder dos Estados Unidos, nem sequer houve falta, mesmo que o lance em causa tenha sido uma entrada com os pitons ao calcanhar de um adversário. Por outro lado, Trump, presidente de um dos países organizadores do Mundial 2026, também admitiu que nem sequer sabia que de uma expulsão, além da saída imediata de campo do jogador, resulta sanção disciplinar que, obviamente, terá de ser aplicada posteriormente.

A ignorância de Trump sobre as regras do futebol estende-se a boa parte dos norte-americanos, país onde a popularidade deste desporto reside, sobretudo, entre a população latina e onde a organização das principais competições (futebol americano, basquetebol e basebol) segue um modelo competitivo muito particular. Por exemplo, não existem subidas e descidas de divisão, já que as equipas que disputam as provas são sempre as mesmas. São franquias, detidas por milionários, que podem ir mudando de proprietário ao longo dos tempos (sem eleições, portanto), tendo sempre garantida a presença nos principais palcos – e respetivo acesso ao big money dos patrocínios e direitos televisivos –, mesmo que não ganhem um único jogo na época anterior. Para ser adicionada uma nova equipa, é preciso que as outras a aceitem. E, além disso, há que pagar muitos milhões de dólares para ter lugar à mesa.

É uma espécie de Clube do Bolinha para os super ricos, o típico centro de poder onde Trump se move com habilidade. Daí que não hesite em pegar no telefone para tentar influenciar a FIFA através do seu líder, para mais quando foi o próprio Gianni Infantino a bater-lhe à porta em dezembro para lhe entregar o primeiro Prémio da Paz da FIFA, elogiando as políticas do presidente norte-americano.

A chamada para Infantino segue-se a outros telefonemas famosos de Trump, como um em 2019 em que terá exigido a Volodymyr Zelensky que investigasse podres de Joe Biden e do filho para os EUA desbloquearem ajuda militar à Ucrânia (o caso teve lugar antes das presidenciais de 2020 e motivou a abertura de um processo de impeachment) ou outro em que pediu a Brad Raffensperger, republicano e Secretário do Estado da Georgia em 2020, para “encontrar 11.780 votos”, número que lhe daria a vitória sobre Biden naquele Estado e, com isso, o voto de 16 delegados no colégio eleitoral que certifica o presidente.

Tentar torcer as regras em benefício próprio não é, de todo, uma novidade para Trump. E desta vez, mesmo que Infantino negue responsabilidade direta na decisão, certo é que Balogun foi mesmo despenalizado e entrou em campo como titular frente à Bélgica. O que estragou o roteiro norte-americano foi o orgulho ferido do adversário. No lugar certo, dentro de campo, os belgas não fizeram por menos e despacharam os anfitriões com uma goleada (4-1). Escreveu-se direito por linhas tortas. A integridade do futebol sobreviveu ao ataque e todos os que a defendem terão sempre uma dívida de gratidão em relação a esta Bélgica.

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