Eis uma informação curiosa: no Internet Archive está disponível uma cópia de excelente qualidade do clássico Forbidden Planet/Planeta Proibido (1956). É provável que alguns espetadores mais precipitados se limitem a considerá-lo como um exemplo primitivo, porventura anedótico, dos efeitos especiais que agora constituem a imagem de marca de muitas aventuras de super-heróis. Ora, vale a pena fazer um esforço para compreender que esta pequena produção, à beira de completar 70 anos - a estreia teve lugar em Nova Iorque, a 3 de março de 1956 -, foi na sua época um objeto verdadeiramente inovador, muito mais do que a maior parte dos títulos com chancela Marvel (se é que tal paralelismo pode ser pertinente).Mesmo considerando apenas o domínio dos efeitos visuais, importa ter em conta o contexto industrial em que o filme foi gerado. Importa, sobretudo, reconhecer que o aparato tecnológico não se pode “medir” nem “valorizar” a partir dos padrões iconográficos do nosso presente - do mesmo modo que, por exemplo, as pinturas abstratas do século XX não servem para minimizar a herança de Da Vinci ou Rembrandt. Dito de outro modo: em 1956, o look de Planeta Proibido era genuinamente revolucionário.. Realizado por Fred M. Wilcox (1907-1964), um típico artesão da produção clássica, capaz de lidar com diversos modelos de espetáculo (incluindo os primeiros títulos de Lassie), Planeta Proibido surgiu nas nomeações para o Óscar de Melhores Efeitos Especiais, categoria que viria a desaparecer alguns mais tarde, num processo que conduziu à separação de efeitos visuais e sonoros. Na altura, não era obrigatório haver cinco nomeados, de tal modo que houve apenas dois candidatos ao Óscar, sendo o outro o épico de Cecil B. de Mille, Os Dez Mandamentos (que viria a ganhar).A coexistência com Os Dez Mandamentos é reveladora de um contexto de produção em que, de facto, Planeta Proibido, agora reconhecido como um momento emblemático da ficção científica, não pertencia a um género dominante.Outras referências sugestivas da época são a aventura mais ou menos burlesca de A Volta ao Mundo em 80 Dias (Óscar de Melhor Filme do ano) ou a comédia romântica com componentes musicais à maneira de Alta Sociedade (com Bing Crosby, Grace Kelly e Frank Sinatra).Narrando a odisseia de uma nave que, no século XXIII, se desloca ao planeta Altair IV para tentar esclarecer que espécie de civilização aí se desenvolveu, Planeta Proibido começa por se distinguir pela inovação dos seus espaços. Entenda-se: pela espetacular utilização dos recursos de estúdio, com ambientes concebidos por Cedric Gibbons e Arthur Lonergan, dois mestres da cenografia.As singularidades de tais espaços cruzam-se com outra contribuição, esta verdadeiramente pioneira: a música eletrónica assinada pelo casal Bebe e Louis Barron.Planeta Proibido resulta, assim, de novos recursos tecnológicos, sendo também uma expressão do seu fascínio. Com as suas imagens em formato CinemaScope (bem diferente do tradicional “quadrado”, cuja proporção é, de facto, 4X3), o filme reflete também a novidade do engrandecimento dos ecrãs.O CinemaScope surgira em 1953, sendo um importante fator de concorrência com os pequenos televisores caseiros que começavam a generalizar-se. Como sempre, a projeção num futuro mais ou menos distante, envolvia, afinal, uma reconversão das imagens do presente - das imagens e, inevitavelmente, do seu imaginário e da nossa imaginação.