O Congresso do Partido Socialista (PS) que ocorreu no fim de semana passado foi o primeiro em dez anos que se realizou com o partido na oposição. Os congressos da última década aconteceram quando o PS estava no poder e o secretário-geral era primeiro-ministro (2016, 2018 e 2021) e, no caso do congresso de janeiro de 2024, o Governo estava demissionário e já havia um novo secretário-geral (SG) eleito, mas estávamos a dois meses de eleições legislativas. O contexto do Congresso de Viseu foi muito diferente, com o partido na oposição depois de um resultado eleitoral particularmente fraco e sem eleições à vista, mas, talvez por isso mesmo, foi uma reunião em que houve efetivamente debate político, aberto e com intervenções com densidade política. Aliás, o facto de o SG ser eleito em eleições diretas permite libertar os delegados e demais presentes para se focarem no confronto franco de ideias.Este debate centrou-se, como era expectável, em torno da postura que se deve adotar na oposição. O PS tem procurado fazer pontes com o Governo, apresentando propostas alternativas, num claro esforço de aproximação (na Lei da Nacionalidade e na Lei da Imigração, por exemplo), mas em todos os casos o Governo tem preferido fazer acordos com a extrema-direita. Ainda assim, como prova de responsabilidade, o PS viabilizou o Orçamento.Mas um Partido do Socialismo democrático com uma matriz social-democrata não pode, em caso algum, votar favoravelmente uma lista de juízes do Tribunal Constitucional que resulte de um acordo AD/Chega que ponha em causa a Constituição de 1976, nem viabilizar um projeto de lei que retroceda nos direitos dos trabalhadores. Esses são limites intransponíveis para o PS e deviam ser também para o Partido Social-Democrata, como partido fundador da Democracia.Hoje, com o centro político tão enviesado para a direita como está em Portugal, até o mais moderado dos sociais-democratas é apelidado de radical, numa forma clara de tentar condicionar a sua atuação política.O centro-esquerda não se deve deixar limitar por isso, até porque a maioria de portugueses, mais de dois terços, votaram em partidos e candidatos que defendem a Constituição, que se revêm no regime democrático e que rejeitam a extrema-direita populista.Constituir-se como alternativa credível ao Governo exige fazer uma oposição firme, exigente e propositiva, que critica, mas que também apresenta propostas construtivas, como, aliás, o PS tem feito. E procurar ativamente soluções para resolver os problemas das pessoas, na habitação (onde o Governo se atreve a vender património público com aptidão habitacional, que devia utilizar para promover o direito à habitação), na Saúde (o SNS nunca esteve tão caótico), nos rendimentos, na garantia da igualdade de oportunidades, na promoção da transição climática, na qualificação da Administração Pública, no apoio à economia. Tudo áreas em que o Governo tem falhado totalmente.Perante as opções do Governo, o PS é, na verdade, o único partido que constitui uma alternativa ao bloco formado hoje pela direita e pela extrema-direita.