Em 1970, o Censo a população surpreendeu Portugal: apenas 8,6 milhões de residentes, menos do que o esperado. A surpresa era, afinal, uma evidência - o país esvaziava-se. Nesse ano saíram de Portugal, pelo menos, mais de 180 mil portugueses. Fugiam da pobreza, da Guerra Colonial, do regime. A emigração era, na leitura da época, um sinal de atraso, parecia assumir números impressionantes e definir a identidade do país, do que ia e do que ficava.Cinquenta anos depois, em 2020, as Nações Unidas estimaram em cerca de 2,1 milhões as pessoas nascidas em Portugal a viver no estrangeiro - aproximadamente 21% da população residente. Em 1970, essa proporção rondava os 9 a 10%. O país enriqueceu, integrou-se no espaço europeu, democratizou-se, urbanizou-se, alfabetizou-se e... esvaziou-se ainda mais.Como se explica esta aparente contradição?Uma parte da resposta está nos incentivos que a própria democracia e a integração europeia criaram. Sair de Portugal, circular pelo mundo e poder residir legalmente noutro Estado tornou-se muito mais fácil e mais barato. Portugal entrou na CEE em 1986 com um salário mínimo de pouco mais de 22 mil escudos - equivalente a cerca de 112 euros, quando a média dos países europeus com salário mínimo legal rondava já os 450 a 550 euros mensais. Um português que ganhasse o mínimo precisaria de poupar dois salários inteiros para comprar um bilhete de ida e volta para Paris - a tarifa regulada pela IATA chegava aos 240 euros de hoje.A desigualdade era tão abrupta que a emigração era, para muitos, a única forma de aceder ao nível de vida europeu.A partir dos anos 1990, a desregulação do espaço aéreo europeu e o surgimento das companhias de baixo custo transformaram a mobilidade num bem de consumo banal. Em 2026, um bilhete de ida e volta Lisboa - Paris pode custar 50 euros - menos de 7% do salário mínimo nacional e o preço do bilhete de comboio Lisboa-Porto. Um voo Lisboa-Nova Iorque, que em 1986 absorvia o equivalente a sete salários mínimos, pode hoje ser feito por cerca de três quartos ou mesmo metade de um... A circulação deixou de ser um privilégio.Esta democratização da mobilidade criou uma nova espécie de emigrante. São os portugueses que partem uns meses para o Luxemburgo, para o Reino Unido ou para a Suíça, ganham - nem sempre dentro da legalidade - aquilo que o mercado português não lhes paga e regressam. Para voltar em seguida. Não rompem com Portugal - vivem entre dois países, dois mercados, duas realidades salariais. O fenómeno não é novo, mas a sua escala e normalidade são seguramente inéditas. E, no processo, como é habitual nos momentos de emigração, usam de forum shopping nos serviços públicos e nas prestações sociais.A história da emigração portuguesa não é já a história de um povo que foge da miséria. É, cada vez mais, a história de um povo que circula - porque legalmente pode, porque a diferença salarial ainda compensa e porque o bilhete está barato.Enquanto Portugal bate recordes de emigração, recebe também mais imigrantes do que alguma vez teve na sua História. Em 2024, o relatório da AIMA contabilizava mais de 1,5 milhões de cidadãos estrangeiros residentes em Portugal. Somos país de origem e país de destino, como nunca fomos. E não ter tirado eventualmente as consequências devidas disso para o bom funcionamento do Estado, nos dois movimentos e realidades em causa (os dois milhões de clientes fora e o milhão em meio de clientes dentro), na Saúde, na Justiça, na segurança, nas fronteiras, na nacionalidade e identidade, na Educação, etc., é uma responsabilidade política exclusivamente portuguesa, para mais num contexto de encarniçamento do volume de taxas e tributos perante os muito rentáveis fluxos de imigrantes e de turistas.É neste contexto que se torna particularmente desconcertante um discurso político que tem ganhado espaço entre nós, o que considera a imigração como ameaça e convoca uma suposta “portugalidade” essencial.Desconcertante desde logo porque os dados não deixam margem para ambiguidades - os portugueses emigram tanto que, proporcionalmente, somos hoje um dos países da Europa com mais cidadãos fora de fronteiras, ultrapassados apenas por Roménia, Bulgária, Lituânia e Croácia.Os portugueses emigrantes, atualmente mais de 20% da população, também não querem ser sempre exemplos de uma integração fantasiosa em novos espaços e nem isso lhes é exigido. E santificar a identidade nacional enquanto se finge ignorar que o país só funciona, há décadas, por ter uma reserva de mão de obra importada e conveniente, é uma ginástica intelectual de rara agilidade.