Um Governo debaixo de fogo

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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O barómetro DN/Aximage de maio, que revelamos nesta edição, confirma uma tendência que se tem acentuado desde o final do ano passado. O Governo está num processo de desgaste acelerado, perdendo votos para o PS de José Luís Carneiro e, em menor escala, para o Chega, que já o ultrapassou nas intenções de voto. Os números deste estudo de opinião não deixam margem para dúvidas e alinham com o que tem surgido noutras sondagens recentes. O eleitorado do chamado centrão está cada vez mais desiludido com o Governo de Luís Montenegro. Um quarto dos eleitores que votaram na AD nas últimas legislativas já mudou a sua intenção de voto, com os socialistas a surgirem como principais beneficiados.

As sondagens valem o que valem, como sabemos, mas revelam tendências que não podem ser ignoradas. E a tendência que temos pela frente é clara. Ao fim de apenas dois anos no poder, o Executivo da AD apresenta um nível de desgaste que, historicamente, só costuma surgir após longos ciclos de governação. Cavaco, nos anos finais da sua segunda maioria absoluta, enfrentou esse desgaste. Sócrates também. Costa, igualmente. Montenegro, porém, está no poder há apenas dois anos.

Há três fatores que ajudam a explicar o que está a acontecer e nenhum deles implica que o projeto político da AD esteja já condenado ao fracasso, apesar do rápido desgaste. Ainda muita água pode correr debaixo da ponte e o primeiro-ministro mantém margem para inverter o rumo.

O primeiro fator é a natureza minoritária do Governo, que limita a sua capacidade de ação em áreas decisivas. Nenhum projeto verdadeiramente reformador pode avançar se depender simultaneamente do acordo do PS e do Chega. Montenegro sabe isso e, provavelmente, acredita que o próprio eleitorado acabará por reconhecer essa limitação. Poderá até acreditar que, se a oposição se unir para o derrubar, beneficiará eleitoralmente e poderá repetir o feito de Cavaco em 1987. Mas esta estratégia é arriscada. Já não vivemos num sistema bipartidário e o Chega não é o antigo PRD. Tem implantação nacional, estrutura e eleitorado fiel. Ignorá-lo seria um erro.

O Governo conta, ainda assim, com um dado relevante. A maioria dos portugueses também faz uma avaliação negativa da oposição. O fator tempo será decisivo para todos. Para o Governo, tempo para corrigir erros, fazer uma remodelação, recentrar prioridades e reinventar-se. Para a oposição, sobretudo PS e Chega, tempo para consolidar equipas e apresentar alternativas credíveis de governação. Porém, esta janela temporal poderá ser estreita, pois já há quem admita eleições no início do próximo ano.

O segundo fator é o das prioridades políticas. A nova lei laboral, mal recebida pela maioria do eleitorado, tornou-se um símbolo de desconexão entre o Governo e as expectativas dos portugueses. A aposta em projetos que não constavam do programa eleitoral, combinada com dificuldades em concretizar o que foi prometido, está a criar um ruído que não favorece o Executivo. Não é um vetor de desgaste inevitável, mas antes um desgaste evitável. Acresce a este facto a realidade adversa do ponto de vista internacional, que não deixará de ter impacto negativo na nossa economia.

Porém, o terceiro fator é talvez o mais difícil de gerir. Vivemos num tempo em que já não temos paciência para ler um jornal inteiro de fio a pavio, ou ver um filme sem olhar para o telemóvel. Consumimos fragmentos, vídeos curtos e estímulos rápidos. Essa aceleração contaminou a política. Já não estamos habituados à estabilidade. Queremos tudo para ontem. E esta impaciência, tanto na vida como na esfera pública, raramente favorece quem tem de tomar decisões. As políticas precisam de tempo para produzir resultados, mas o país vive num ritmo que não tolera espera, potenciando a instabilidade.

O barómetro mostra, assim, um Governo em perda e uma oposição que ainda não convence. Mostra um país impaciente, exigente e cansado. E, sobretudo, mostra que o tempo político se tornou mais curto do que nunca - algo que tanto o Governo como a oposição não podem ignorar.

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