O discurso de Mark Carney no Parlamento Europeu, a 17 de setembro, não começou pelo comércio nem pelos tratados, mas por uma árvore: o carvalho de Goethe, no monte Ettersberg, perto de Weimar, onde o poeta passeava e que o século XX acabaria por fechar atrás do arame farpado de Buchenwald. E citou, em alemão, o final do Fausto: só merece a liberdade e a vida quem as conquista todos os dias.
Depois atravessou o Atlântico. Em 1917, na batalha de Vimy, que os canadianos consideram o seu baptismo como nação, o tenente Leslie Miller apanhou um punhado de bolotas no campo devastado e plantou-as no Ontário. Um século depois, enxertos desses carvalhos regressaram a Vimy. A metáfora, essa, a de que uma árvore sozinha cai na tempestade e uma floresta, de raízes entrelaçadas, resiste.
A tempestade tem nome, mesmo quando não é pronunciado. Carney não referiu Donald Trump, mas descreveu com precisão o mundo em que vivemos: tarifas usadas como pressão, cadeias de abastecimento transformadas em armas, instituições multilaterais enfraquecidas, plataformas tecnológicas que se comportam como Estados. A ordem internacional baseada em regras, que durante oito décadas demos por garantida, deixou de ser um dado adquirido.
É neste quadro que ganha sentido a proposta de Ursula von der Leyen, feita na véspera: fazer do Canadá o primeiro “membro associado” da União. Carney acolheu-a, mas preferiu outra palavra: aliança. Uma aliança por função e não por geografia, em minerais críticos, energia, inteligência artificial, defesa, espaço e pagamentos, com jovens a estudar e trabalhar dos dois lados do oceano através do Erasmus+.
Lembrou aos eurodeputados que, graças à Gronelândia, a Europa e o Canadá partilham três mil quilómetros de fronteira no Ártico. E foi buscar a Goethe a expressão “afinidades electivas”, não somos vizinhos por acaso, somos aliados por escolha.
A ideia, aliás, é antiga. Em 1949, o Canadá bateu-se pelo artigo 2.º do Tratado do Atlântico Norte, ainda hoje chamado “artigo canadiano”, que via a NATO como comunidade económica e política e não apenas militar. Nos anos 70, Pierre Trudeau lançou a “Terceira opção” para reduzir a dependência dos Estados Unidos, e daí nasceu, em 1976, o primeiro acordo-quadro da Comunidade Europeia com um país industrializado. Meio século depois, o acordo comercial CETA abriu mercados e o Canadá tornou-se o primeiro país não europeu a participar no instrumento europeu SAFE para a defesa.
O alcance jurídico ainda terá de ser definido. O seu significado político é o de aproximar duas democracias capazes de somar recursos e reduzir vulnerabilidades. Para Portugal, país atlântico, esta agenda interessa especialmente na segurança marítima, nos portos, na energia e nas oportunidades para as nossas empresas.
Nada disto significa virar costas aos Estados Unidos. Trump achou a ideia “risível”, mas a relação transatlântica é maior do que qualquer inquilino da Casa Branca, e Carney defende que um Canadá mais próximo da Europa será um parceiro melhor para Washington.
A cimeira de Montreal, em outubro, dirá se as palavras dão fruto. As bolotas estão lançadas. Falta cuidar da floresta. Todos os dias.