UE/EUA: alinhamento, cumplicidade e submissão, nas entrelinhas ou em cima delas

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Instalou-se a ideia de que a UE vive uma fractura política corporizada nas posições pretensamente divergentes de António Costa e Ursula von der Leyen a propósito da agressão dos EUA e Israel ao Irão. Há até quem sugira que essa divergência vai mais longe, abrangendo diferentes concepções quanto à natureza da relação entre a União Europeia (UE) e os EUA e ao papel a desempenhar pela UE na cena internacional.

A fractura não se comprova e a divergência fica apenas pela superfície da aparência das palavras utilizadas. Procurando mais fundo encontramos um posicionamento que é, afinal, partilhado entre ambos naquilo que ele tem de mais significativo.

O alinhamento da UE com os EUA, a cumplicidade com a sua ação à escala global e a submissão às suas imposições é o substrato comum que os une. Mesmo que um diga nas entrelinhas aquilo que outra escreve em cima delas.

Percorrendo as várias declarações feitas nas últimas semanas, em nenhum lado se consegue encontrar uma condenação simples e direta da agressão dos EUA e Israel ao Irão por parte de qualquer um desses responsáveis da UE. Na melhor das hipóteses encontram-se referências gerais e indiretas à censurabilidade de bombardeamentos feitos em nome da democracia e em desafio da “ordem internacional baseada em regras”. Em alguns casos as referências são de tal forma difusas e confusas que pode haver quem fique com a dúvida de as palavras terem sido proferidas para visar mesmo os EUA.

Havendo diferenças a registar na forma escolhida por cada um para se referir ao Direito Internacional, a verdade é que nenhum identificou aquela agressão ao Irão como a grosseira violação do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas que ela constitui. Estando o mundo perante uma agressão injustificada e não-provocada, ainda menos se percebe que o discurso não seja claro e veemente como foi noutras circunstâncias. Revela-se, afinal, o viés e o duplo critério que quebram a credibilidade e marcam a parcialidade do posicionamento assumido pela UE sempre que estão em causa os abusos de quem é considerado aliado ou amo e senhor.

Nas referências cruzadas ao Direito Internacional, à liberdade, à democracia, à paz, aos Direitos Humanos e à soberania dos povos encontrar-se-à, eventualmente, maior diferença entre os discursos de Costa e Von der Leyen. Mas é apenas pelo discurso que essas diferenças se quedam. Na acção mantém-se a unidade dos responsáveis da UE no alinhamento, na cumplicidade e na submissão aos EUA.

Só assim se explica que a UE não “mexa uma palha” para contrariar a acção agressiva dos EUA, apesar dos sublinhados feitos quanto aos seus impactos negativos relativamente à América Latina, à Gronelândia e ao Médio Oriente ou ao povo palestino em Gaza, aí por interposta figura do governo de Israel.

Nem de um, nem de outro se ouve sequer falar, por exemplo, de agir para pôr fim ao genocídio em Gaza suspendendo o acordo de associação UE/Israel.

Convenhamos que, para fractura e divergência política, é preciso que haja mais substância…

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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