Trump embaraça os patriotas europeus

Diogo Noivo

Politólogo

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Para a direita radical europeia, Donald Trump representa um sucesso improvável. Demostrou que é possível. Se chegou à Casa Branca, então Marine Le Pen poderá chegar ao Eliseu, Matteo Salvini ao Palazzo Chigi e Santiago Abascal ao Palácio da Moncloa. Viktor Orbán deixaria de ser uma excentricidade incómoda para se converter no novo normal.

O trumpismo ofereceu um modelo vocabular e performativo. Mas também uma legitimação simbólica: normalizou o excesso. Na senda da distopia orweliana, esboroou a fronteira entre sinónimos e antónimos, donde o insulto se converteu em franqueza, o improviso é agora autenticidade, e o confronto institucional um atestado de valentia. 

A direita radical europeia quis importar o método sem assumir o caos. Acreditou que podia separar estilo e substância. Contudo, Trump não será exportável por fascículos.

O primeiro sinal de alarme foi eleitoral. Em 2020, Trump perdeu e recusou aceitar a derrota, transformando o princípio básico da alternância democrática numa teoria de fraude permanente. Para partidos que, apesar do radicalismo, desejam apresentar-se como alternativas viáveis e responsáveis, a associação a um derrotado refractário foi uma pedra no sapato.

O regresso de Trump ao poder em 2024 remeteu essa inconveniência para um passado distante e turvo. Mas o alívio foi momentâneo. As ameaças à Gronelândia tiveram um efeito corrosivo. De repente, partidos europeus cuja identidade se forma em torno da inviolabilidade da nação viram o seu principal aliado ameaçar a soberania de um Estado-Membro.

Este episódio expôs uma contradição central da direita radical europeia. Nacionalista por definição, sempre assumiu que o nacionalismo dos outros seria benigno, ou pelo menos compatível. Trump mostrou o contrário. O seu nacionalismo não reconhece equivalentes, apenas interesses e poder. Para dinamarqueses, franceses ou italianos, a Gronelândia não era um detalhe remoto, mas a prova de que Trump não oferece garantias a soberanias alheias.

Depois, o recreio da geopolítica. A imprevisibilidade trumpiana em matéria de alianças, guerra e comércio é um problema para movimentos que prosperam com o medo externo, mas dependem de certa estabilidade interna.

Criticar Bruxelas é fácil. Explicar ao eleitor que a segurança europeia, a inflação e o preço dos combustíveis pode ficar refém de impulsos presidenciais em Washington é bem mais difícil. É que, ao contrário do que ainda se propaga nos debates públicos europeus, a direita radical tem mais de voto de protesto do que de restauração do fascismo.

Não surpreende, por isso, que muitos líderes desta direita tenham começado a recalibrar a relação. Menos fotografias, menos entusiasmo, mais distanciamento retórico. Aparecem até críticas frontais. No caso espanhol, a proximidade do VOX a Trump instiga clivagens internas que já levaram a umas quantas cisões. Não é conversão ideológica. É sobrevivência política.

Enquanto símbolo, Trump serviu. Enquanto actor concreto, revelou-se corrosivo. Para movimentos que prometem retomar o controlo dos seus países, descobrir que a sua bússola estratégica trata a soberania de terceiros como moeda de troca constitui um choque tardio e, porventura, traumático.

Como tantas relações assentes em paixões rápidas e deslumbradas, esta pode terminarem embaraço penoso. O aliado não mudou. O que está a mudar é a clareza com que é visto.

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