A nova direita nacional conservadora e popular sofreu recentemente duas derrotas na Europa: Giorgia Meloni perdeu o referendo e Viktor Orbán perdeu a eleição. Além destes insucessos, as críticas de Donald Trump ao papa Leão XIV abriram mais uma polémica protagonizada pelo presidente norte-americano, que foi excessivo, imprudente e injusto para com o chefe da Igreja Católica.Embora baptizado na Igreja Presbiteriana escocesa, a que pertencia a sua mãe, Trump declarou-se, em 2020, um non-denominational Christian; ou seja, um cristão não-incluído em nenhuma das igrejas ou seitas oficiais.Tradicionalmente, a maioria dos católicos (que perfazem 22% da população norte-americana) votava democrata, mas, como já sucedera com Nixon em 1972 (entre 53% e 56%) e Reagan em 1984 (56%), em 2024 o voto católico caiu maioritariamente em Trump, graças à sua agenda conservadora, em absoluto contraste com o libertarismo individualista de Biden e Kamala Harris, defensores do aborto e da eutanásia.Porém, as críticas de Trump ao papa Leão XIV a propósito da reacção do pontífice à guerra do Irão podem mudar as coisas. Trump criticou Leão, acusando-o de fraqueza no combate ao crime e de incompetência danosa em política externa (“week on crime and terrible for Foreign Policy”). O papa respondeu, não se deixando impressionar ou intimidar pelas acusações.Além das pouco felizes críticas a Leão XIV, Trump fez-se representar em trajes de Cristo taumaturgo, o que, com razão, escandalizou muita gente, incluindo partidários e votantes republicanos.O papa e os bispos norte-americanos têm-se mostrado críticos de alguns aspectos da política migratória da Administração Trump. É certo que o presidente foi eleito com um programa claro de controlo da imigração, mas é difícil, em termos evangélicos e sobretudo a partir do Vaticano, negar solidariedade àqueles que se vêem forçados a procurar fora de fronteiras uma vida melhor.Aqui, há um claro conflito entre a Igreja e o Estado. Já quanto à guerra, neste caso à guerra do Irão, é também difícil para o papa ter uma atitude que não seja a de pregar a paz. Tanto mais que, também cultivando o excesso, o secretário da Defesa Pete Hegseth, pela voz do seu “director espiritual” Brooks Potteiger, veio congratular-se com a “direcção divina” dos mísseis e bombas da Força Aérea dos Estados Unidos no Irão, alguns dos quais atingiram civis inocentes.Longe vão os tempos em que católicos, e até sacerdotes, exaltavam a guerra – como Agostino Gemelli, o fundador da Universidade Católica do Sacro Cuore de Milão que, em 1915, rejubilava com a entrada da Itália na guerra contra a Áustria. Gemelli, que manteve a independência da Universidade Católica durante o fascismo e albergou vários professores antifascistas, foi um dos últimos teóricos da “guerra justa”. Mas a partir da Guerra Fria, da bomba atómica e do risco de auto-aniquilamento da humandidade que trazia, os papas tornaram-se, naturalmente, mais críticos da “guerra justa”.A polémica nos Estados Unidos atingiu também a hierarquia católica: monsenhor Timothy Broglio, arcebispo das Forças Armadas, que tem o múnus sobre 200 capelães militares católicos em missão, veio afirmar que a justificação governamental para a guerra contra o Irão – “a ameaça nuclear” de Teerão – era “hipotética” e não podia justificar a ofensiva norte-americana.Até o bispo de Winona-Rochester, no Minnesota, Robert Barron, um conservador assumido, não deixou de dizer que Trump devia “pedir desculpa ao papa”. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia