O Automóvel Club de Portugal está a promover a proposta de um referendo municipal sobre a continuidade das plataformas de trotinetes partilhadas em Lisboa. A preocupação é legítima, já a solução proposta merece, pelo menos, uma reflexão mais profunda.
Todos os dias assistimos ao mesmo cenário. Trotinetes que passam sinais vermelhos, circulam nos passeios, seguem em contramão ou ficam abandonadas onde dificultam a passagem. E quem diz trotinetes diz também bicicletas.
Não vale a pena fingir que o problema não existe. Existe, incomoda e, sobretudo, cria situações de perigo.
O automobilista irrita-se com o ciclista. O ciclista com o peão. O peão com a trotinete. Quem anda de trotinete irrita-se com o automóvel.
É um velho cisma social: aquilo que não usamos, aquilo que não compreendemos ou aquilo que interfere com os nossos hábitos transforma-se facilmente em algo que gostaríamos de ver proibido.
Mas talvez estejamos a fazer a pergunta errada.
O problema são as trotinetes ou a forma como permitimos que fossem introduzidas e utilizadas na cidade?
E é precisamente aí que encontramos mais um dos erros da governação socialista: introduzir novas soluções nas cidades como se a inovação, só por existir, criasse espontaneamente os comportamentos necessários ao seu funcionamento.
Não cria.
Uma nova forma de mobilidade exige preparação, pedagogia, adaptação do espaço público e, inevitavelmente, fiscalização. Não basta colocar milhares de equipamentos na rua, disponibilizar uma aplicação e esperar que uma nova cultura de mobilidade nasça por geração espontânea.
Parece elementar.
E existe aqui uma diferença que me parece essencial já que a proibição trata todos como se fossem o infrator, enquanto a fiscalização distingue quem cumpre de quem não cumpre.
Essa diferença diz muito sobre a sociedade que queremos construir.
Uma sociedade adulta não é aquela onde tudo é permitido. É precisamente aquela onde a liberdade convive com responsabilidade.
Há certamente muito a corrigir no modelo atual, mas proibir, por proibir, não é governar.
E é precisamente por isso que vejo com confiança o trabalho que Gonçalo Reis está a desenvolver na área da mobilidade em Lisboa.
A cidade precisa do seu plano, que olha para a mobilidade como um todo, que procure compatibilizar peões, transportes públicos, automóveis, bicicletas e novas formas de mobilidade suave, em vez de escolher umas contra as outras.
Porque hoje discutimos trotinetes. Amanhã será outra inovação, outro comportamento ou outra utilização do espaço público.
Por isso, não preciso de ir votar novamente, quando há menos de um ano votei confiantemente em Carlos Moedas e na sua visão estratégica para a cidade.
E no final, talvez a pergunta mais importante nem sequer seja se Lisboa quer ou não trotinetes partilhadas.
Queremos uma cidade capaz de gerir novas formas de mobilidade, educando, regulando, fiscalizando e responsabilizando quem não cumpre, ou uma cidade que, perante cada dificuldade de convivência, responde diminuindo o número de coisas que os cidadãos podem fazer?
Eu prefiro uma cidade que governe.