Há algo de profundamente errado num país onde milhares de portugueses começam a trabalhar cedo, descontam durante décadas, contribuem para o crescimento da economia e para a sustentabilidade da Segurança Social, mas são obrigados a prolongar sucessivamente a sua vida ativa porque a idade da reforma continua a aumentar.Hoje, em Portugal, a idade normal de acesso à reforma situa-se nos 66 anos e 9 meses e já está prevista uma nova subida para os 66 anos e 11 meses. Tudo isto porque o sistema continua indexado à evolução da esperança média de vida. Na prática, quanto mais vivemos, mais somos obrigados a trabalhar.A questão que importa colocar é simples: será isto justo?Ninguém defende a insustentabilidade da Segurança Social, nem ignora os desafios demográficos que Portugal enfrenta. Mas uma coisa é garantir a sustentabilidade do sistema, outra é transformar essa sustentabilidade numa penalização permanente para quem trabalhou uma vida.Quem começou a trabalhar aos 20 anos e acumulou 40 anos de descontos já contribuiu amplamente para o sistema. Exigir que continue a trabalhar até perto dos 67 anos, ou mais no futuro, significa ignorar o desgaste físico, psicológico e profissional de milhares de trabalhadores, especialmente daqueles que desempenham profissões mais exigentes.É precisamente por isso que ganha relevância a proposta de permitir a reforma sem penalizações aos 65 anos ou após 40 anos de carreira contributiva. Trata-se de reconhecer o mérito de quem trabalhou, descontou e cumpriu as suas obrigações perante o Estado.Mas este debate não pode ser separado de outra realidade que tem indignado muitos portugueses: a existência de reformas milionárias atribuídas ao abrigo de regimes especiais, exceções ou mecanismos que dificilmente encontram justificação perante o cidadão comum.É aqui que surge a chamada Lei Centeno, uma proposta que pretende introduzir maior equilíbrio e moralização no sistema de pensões. O princípio é simples, num país onde milhares de reformados vivem com dificuldades, não faz sentido que continuem a existir pensões de muitos milhares de euros mensais pagas pelo Estado.A discussão não é sobre perseguição pessoal, nem sobre casos concretos. É uma questão de proporcionalidade, de justiça social e de confiança dos cidadãos nas instituições. Quando um trabalhador comum recebe uma reforma que muitas vezes não ultrapassa algumas centenas de euros, torna-se difícil compreender situações em que pensões elevadíssimas são atribuídas após percursos contributivos ou regimes claramente diferenciados da realidade da maioria dos portugueses.A sustentabilidade da Segurança Social exige equilíbrio. Mas esse equilíbrio não pode ser pedido apenas a quem trabalha e desconta durante décadas. Deve também existir na forma como os recursos públicos são distribuídos e utilizados.Portugal enfrenta um desafio demográfico sério, mas enfrenta igualmente um desafio de credibilidade. Os portugueses precisam de sentir que o sistema é justo, que recompensa quem trabalha e que não protege privilégios incompreensíveis para a maioria da população.Defender a reforma aos 65 anos ou após 40 anos de descontos não é um ataque à sustentabilidade financeira. É afirmar que uma vida inteira de trabalho deve merecer respeito e reconhecimento.Da mesma forma, discutir limites razoáveis para pensões excecionalmente elevadas não é populismo. É responder a uma exigência crescente de equidade e responsabilidade social.Num país onde tantos vivem preocupados com o futuro da sua reforma, talvez tenha chegado o momento de recentrar o debate numa ideia simples: o sistema deve existir para servir os portugueses, e não para perpetuar desigualdades que a maioria já não compreende nem aceita.Quem exerce funções publicas, tem de estar ao lado dos portugueses que trabalham, descontam e sustentam o país. Ao lado de quem se levanta cedo todos os dias e espera, legitimamente, uma reforma digna após uma vida de esforço e contributo.