No Conselho Estratégico da Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras há ex-ministros e ex-vice-governadores do Banco de Portugal, ex-presidentes de bancos e investigadores, figuras de reconhecida dimensão nacional. Uma das pessoas que tenho mais gosto em ver sentada a meu lado é a cientista Elvira Fortunato que, em todas as listas de possibilidades de voltarmos a conquistar o Nobel, ocupa quase sempre o primeiro lugar.Ultimamente tive com o leitor duas conversas longas e não pude dizer tudo o que sabia acerca do que agora partilho com o país e consigo.É difícil dizer isto, sem correr o risco de um orgulho para lá do admissível, compreenderão decerto a razão.Ao fim de mais de 500 anos, Torres Vedras voltará a ter um Campus Universitário a funcionar no concelho.Será a primeira vez que a Faculdade de Medicina de Lisboa sai da capital para fortalecer as suas valências e continuar a contribuir para o futuro do nosso país e para a sustentabilidade do SNS.A nossa Caixa Agrícola, após um pedido do Tribunal de Contas no sentido de a Faculdade de Medicina e a Câmara de Torres Vedras, duas entidades públicas, terem um associado privado habituado à fiscalização de investimentos, entrou nesta parceria que vai ao encontro da nossa identidade, da nossa razão de existir, da razão de existir do próprio cooperativismo.Está feito e assinado.Recusámos lugares na administração, e aceitámos indicar a título pessoal dois vogais para o conselho fiscal e presidência da assembleia-geral que exercerei pro bono com responsabilidade e sentido de dever.Assinámos com a câmara e a faculdade um memorando de entendimento que obriga a que certas decisões sejam tomadas por unanimidade, a transparência será absoluta e acreditamos que a comunidade torreense e a sociedade civil estarão à altura deste ambicioso empreendimento. Seria importante que o projeto se mantivesse como uma associação sem fins lucrativos, mas a seu tempo veremos se será necessário, espero que não, a passagem a sociedade anónima. Se tal acontecer não nos será possível continuar como sócio pelas leis que nos são aplicáveis.A primeira “pedra” desta possibilidade foi lançada por Carlos Bernardes, antigo presidente da Câmara de Torres Vedras e continuada pela sua sucessora, Laura Rodrigues e, por fim, pelo atual presidente Sérgio Galvão que assinou o documento final. Três presidentes que, no fundo, aumentam a credibilidade e o sentido de união que se tornou transversal e independente de cores políticas, tudo com a persistência incansável do prof. Joaquim Ferreira.O projeto foi desenhado pelo arquiteto Frederico Valsassina que pensou o espaço a partir dos alicerces do velho Convento dos frades arrábidos, fundado no século XVI pela Infanta D. Maria, filha de D. Manuel. Um convento que acabou por ser, na maior parte da sua existência, um lugar de franciscanos descalços que tinham a porta aberta para que todos os desvalidos e mendicantes pudessem curar as suas maleitas de alma e de saúde. Depois das revoltas liberais o espaço foi vendido em hasta pública ao Marquês de Valada que o revendeu aos Jesuítas para se reinstalarem . Com a República, o Estado transformou o convento num asilo de idosos, mas o espaço acabou desmantelado. Até à reinvenção anunciada nesta feliz parceria.Será um espaço de inovação. De ensino, investigação e cuidados primários de saúde, o que é inestimável para a nossa comunidade e para o país. Torres Vedras elevará o seu valor per capita e atrairá talento - estão previstos 400 novos postos de trabalhos diretos.Um verdadeiro desafio criar condições para que o nosso “cluster de saúde” possa ser também uma plataforma integradora com massa crítica de vários mundos, a começar pela América Latina, com médicos e enfermeiros que poderão concretizar mais facilmente a sua ambição de obter equivalências que, no nosso país, não têm sido fáceis de obter.Está pensado que o nosso setor hortícola possa beneficiar com algumas das investigações previstas. Beneficiar e ser parceiros efetivos para que seja resolvida uma necessidade premente: a colaboração entre a universidade e as empresas. Este projeto corresponde a uma estratégia contra o populismo de vitimização constante. Inquieta-me a ideia de estarmos sempre a achar que não conseguimos, que não é possível - por vezes, as soluções para resolver os problemas da luz não estão debaixo do candeeiro, há que ser inovador, arriscar, acreditar. Temos de tentar ousar, talvez ser como aqueles portugueses que o foram nos idos de mil e quinhentos, data da constituição da Ordem que habitou o Convento e que alargaram a estrada do Mundo porque pensaram mais, melhor e maior. manuel.guerreiro@ccamtv.pt