Em fevereiro, a Comissão Europeia escolheu Lisboa para apresentar o plano de Bruxelas para fazer face à crise da habitação, um problema que se coloca, fundamentalmente, em duas frentes: a falta de imóveis no mercado a preços acessíveis e o aumento galopante do custo daqueles que estão disponíveis, tanto para compra, como para arrendamento. Regra geral, os planos são sempre bonitos no papel. O problema é que, demasiadas vezes, as recomendações/políticas que resultam dos gabinetes de estudo chocam de frente com a realidade. Bruxelas quer, por exemplo, estimular a construção de moradias e, assim, reforçar a oferta. No entanto, logo aqui há um desafio: num setor já há muito deficitário nesse aspeto, como é que se pode angariar mão de obra, de forma rápida, num continente onde em vários Estados-membro se assiste à chegada (ou aproximação) ao poder de forças políticas que são abertamente contra mais imigração? Outra aparente contradição: Bruxelas quer definir um conjunto de regras para diminuir o impacto nas cidades do alojamento de curta duração, mas sempre que se fala em reformas mais profundas, para proteger zonas sob elevada pressão turística, logo os operadores do setor correm para os microfones a recordar aos estados o dinheiro que podem perder com a suposta fuga dos turistas para outras paragens (algo ainda mais relevante em países como Portugal, onde as receitas turísticas têm elevado peso no PIB).Seja como for, se há um problema há que procurar soluções e o imobilismo não conduz a nada. Até porque se o amanhã encerra desafios, o hoje não se fica pela ameaça e sente-se na carteira. Não falemos sequer do aumento do preços dos combustíveis e dos bens de consumo, em resultado na guerra no Irão, e façamos zoom apenas ao setor imobiliário. A taxa Euribor está a subir novamente a todos os prazos (a seis e doze meses para máximos desde janeiro de 2025 e setembro de 2024, respetivamente), o que quer dizer que quem pediu crédito para comprar casa vai ver a despesa crescer muito brevemente. Por outro lado, logo na segunda-feira, o Instituto Nacional de Estatística apresentou os dados consolidados de 2025 com o índice de preços de habitação, dando conta de um aumento de 17,6% no ano passado, mais 8,5 pontos percentuais (p.p.) do que em 2024. Não é só um aumento, é um recorde. A subida de preço foi maior nas casas já existentes (18,9%) do que nas novas (14,2%), tendo o valor transacionado atingido os 41.200 milhões de euros (mais 21,7% do que em 2024). O preço sobe, mas nem assim a procura abranda, pois em 2025 foram negociadas 169.812 habitações (mais 8,6% do que em 2024). Na Grande Lisboa, epicentro da crise nacional, o número total de vendas até diminuiu em relação ao ano anterior, com uma quota de 18,7% a nível nacional, mas concentrou 30,1% do valor das transações (12.400 milhões de euros). Não por acaso, a capital portuguesa foi a escolhida por Bruxelas para apresentar o plano para a crise habitacional. Na ocasião, Dan Jorgensen, comissário europeu para a Habitação e Energia, reconheceu que não há tempo a perder e que “já ontem” era preciso agir, afirmando que “ter casa é um direito humano”. Contudo, sem coragem política para acelerar/implementar as possíveis soluções, o risco é que o “direito”, aos poucos, se vá tornando um privilégio apenas ao alcance de alguns.