Tenho fé que no fim do túnel existe luz

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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A Quaresma é também um lugar onde nos posicionamos. Mais do que o Natal, que é alegria, mas também comércio, nos 40 dias de caminho para a Páscoa podemos mergulhar no que verdadeiramente interessa: a consciência de que a nossa vida é uma passagem que devemos aproveitar o melhor que soubermos.

Pensar sobre nós, pensar sobre o que faço, para onde vou, o que desejo, o que me culpabiliza, as falhas, a necessidade de prosseguir, de pedir perdão, o sacramento da reconciliação.

A palavra pecado não está na moda. Parece coisa antiga, de um outro tempo, mas não há palavra que melhor defina o que nos consome, mesmo não acreditando em nada que nos transcenda. O pecado não é apenas visível quando somos apanhados, é uma coisa nossa, um assunto do que somos, deixa marcas. É doença, mais do que transgressão. É a pátria do anti-homem, apesar de nos ser imanente. Não é ocasional, é a falta de liberdade com que vivemos, tantas vezes sem disso darmos conta, e que se exprime em ações e omissões. Uma doença crónica, sem dúvida.

O perdão não é uma desculpa, é uma cura, é uma recriação da nossa vida, é o baralhar e dar de novo na certeza de que não devemos cometer os mesmos erros. Para quem acredita em Deus, só Ele poderá perdoar.

Neste dia, nestes dias, é disso que se trata. Se repararmos no Evangelho, Jesus faz muito poucos julgamentos, mas cura. Quando faz milagres, quando diz, é a cura que interessa, a esperança e o otimismo no nosso livre arbítrio.

Gosto da Páscoa porque a vida triunfa sobre a morte, a luz sobre as trevas, a confissão sobre o pecado. É tempo de renascimento, do folar e de Sol, é tempo de se iniciarem as lavouras, tempo de tudo voltar a renascer. O cheiro do frio – um dia escreverei acerca disso – anuncia o que a Primavera antecipa.

O Tempo Novo é isso, o recomeço, a possibilidade de recomeçar.

A seguir à morte vem a Ressurreição. Rasga-se a história, tal como o pano do Sinédrio, e parte -se para o milagre da Vida e para a aventura de estarmos aqui. São estes os meus dias preferidos: os dias dos pecadores que se reconhecem como tal.

Acreditem que adoraria ser ateu. Era mais fácil, mas ser crente é preferir o que é difícil. Que possamos então renascer a cada acontecimento, que a morte seja apenas um ponto de referência para uma vida plena e bem vivida. Que a Ressurreição de Cristo seja uma inspiração para uma vida com Amor, pois a vida nunca tem fim. Podemos renascer todos os dias. Esta é a razão mais forte para ser católico. Para quem acredita é assim, o mais maravilhoso mistério.

Nestes dias imprevisíveis, de guerra e devassidão, talvez a Páscoa possa ser mais autêntica. Porque, mais do que nunca, ou tanto como nos piores momentos da Humanidade, o que nos pode salvar e oferecer um sentido é a vontade de sermos maiores, de nos preocuparmos, de termos sentimentos e empatia. O jejum de carne foi feito do que é imaterial. Foi feito do deserto, da necessidade de purificação, do respeito pelo sacrifício de Cristo.

Seria muito bom se nos conseguíssemos sacrificar um pouco, a começar pelo sacrifício de algumas das nossas certezas que nos levam a abdicar do questionamento. Que possamos partir para um tempo de luz, um tempo novo e autêntico em que não tenhamos medo que algo morra em nós pois, por vezes, é necessário que tal suceda para se renascer. Se tal não acontecer, pelos menos que possamos cair do cavalo, como Saulo na estrada de Damasco, transformado num outro homem depois de Deus o cegar para que renascesse como Paulo, o apóstolo dos gentios. É uma passagem muito forte por provar que todos, mesmo o mais fariseu dos homens, pode ambicionar uma segunda vida.

O motivo mais relevante pelo qual sou católico, como escrevi atrás, é a fé na ressurreição. A fé de que no fim do túnel existe luz, a mesma que se abriu no Sepulcro.

Essa é a luz em que acredito, a mais bonita de todas, a luz da esperança.

Desejo-lhe uma Santa Páscoa. Até para a semana.

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