Quando o presidente norte-americano Donald Trump voltou a colocar a Gronelândia no centro do debate internacional, muitos reagiram com surpresa e até humor. A ideia de “comprar” ou reforçar a influência sobre um território autónomo do Reino da Dinamarca parecia deslocada no tempo — quase anacrónica.Mas a política internacional raramente é apenas simbólica. A Gronelândia tem importância estratégica real. A sua localização no Ártico permite controlar rotas marítimas emergentes, garante vigilância sobre o Atlântico Norte e coloca o território no coração de uma região onde a presença da Rússia e da China se intensifica. A Islândia, o Canadá e a própria Dinamarca são apenas partes de um mapa maior de interesses estratégicos. Para Washington, portanto, o tema não é descabido: trata-se de antecipar cenários geopolíticos futuros.No entanto, alguns analistas levantam uma hipótese mais instigante: poderá o foco mediático na Gronelândia ter servido também para desviar atenção de outros dossiers sensíveis, como a situação na Venezuela? Não existe prova formal de que assim tenha sido, mas a política moderna depende cada vez mais de gestão de agendas e controle da narrativa pública.O conceito não é novo. A ciência política fala de “agenda setting”: quem define os temas centrais influencia automaticamente a forma como os cidadãos percebem os problemas e prioridades do governo. Ao introduzir um tema inesperado, disruptivo ou visualmente apelativo, um líder pode deslocar o debate mediático, mesmo que não abandone os outros temas.No caso da Gronelândia, o efeito foi imediato: os meios de comunicação focaram-se no Ártico, no papel da NATO e da União Europeia, e na reação da Dinamarca. Outros assuntos, incluindo decisões complexas sobre sanções, apoio a opositores ou negociações diplomáticas na Venezuela, passaram para segundo plano.É importante sublinhar que não se trata de conspiração, mas de uma leitura estratégica da política mediática. Líderes contemporâneos aprendem rapidamente que a narrativa pública é tão importante quanto a decisão política.Esta não é uma prática exclusiva de Donald Trump. Ao longo da História, presidentes e primeiros-ministros recorreram a temas inesperados para mobilizar opinião pública ou reposicionar prioridades. Desde as crises mediáticas utilizadas durante a Guerra Fria, até à política de comunicação de crises económicas no século XXI, o padrão é semelhante: criar ou enfatizar um tema que capture atenção, enquanto outros temas complexos ganham tempo ou visibilidade limitada.Trump, por sua vez, tornou esta estratégia quase uma marca pessoal. Declarações audaciosas, inesperadas e, por vezes, provocadoras são usadas para dominar ciclos noticiosos e forçar adversários e aliados a reagirem no terreno definido por ele. No plano da análise, não é difícil imaginar que a Gronelândia tenha desempenhado esse papel.Para a União Europeia, e por extensão para Portugal, este episódio traz lições importantes. Num mundo cada vez mais saturado de informação e narrativas concorrentes, a política externa não se define apenas pelo terreno estratégico, mas também pela capacidade de gerir a atenção pública. Cada tema, por mais periférico que pareça, pode afetar decisões, alianças e perceções.A situação demonstra ainda um ponto estrutural: a Europa continua dependente da capacidade de comunicação estratégica de outros atores, nomeadamente os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, mostra a importância de desenvolver mecanismos próprios de resposta rápida, análise de risco e articulação diplomática, para não reagir apenas à agenda de terceiros.A grande lição não está em afirmar com certeza se houve ou não intenção deliberada de desviar atenção da Venezuela. Está em perceber que, no século XXI, os temas que dominam a comunicação moldam as decisões políticas tanto quanto os mapas geopolíticos. O que é colocado no centro do debate nem sempre é o mais importante; muitas vezes, é apenas o mais eficaz para reorganizar perceções e prioridades.Para Portugal, a mensagem é dupla: compreender a política global exige ler não apenas o que está em foco, mas também o que se desloca para a sombra. E aceitar que, cada vez mais, governar implica gerir não só o poder, mas a atenção que ele gera.No fim, a Gronelândia pode ser mais do que um território estratégico: é também um exemplo de como, hoje, a política internacional se faz tanto pela ação concreta como pela capacidade de dominar narrativas.