Sul-coreanos e japoneses

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Na Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, a entrada no estádio de Sohn Kee-chung a segurar a tocha foi um momento de emoção vivido por toda uma nação. Sohn, então com 76 anos, foi o Campeão Olímpico da Maratona nos Jogos de Berlim, em 1936, celebrizados pelas vitórias do negro americano Jesse Owens, para desagrado de Hitler.

Um outro momento que ficou para a história, graças a uma fotografia do pódio dos maratonistas, foi aquele em que o coreano Sohn, forçado a correr com um nome japonizado e com a bandeira do Japão no equipamento, posicionou um vaso com alguma vegetação que lhe foi oferecido pouco antes de modo a ocultar o símbolo do país colonizador. Foi um ato simbólico de insubmissão, que fez do atleta um herói quando acabou a Segunda Guerra Mundial e a Península Coreana se libertou, ainda que ficasse dividida, até hoje, em duas metades rivais.

Os Jogos de Seul aconteceram há quase 40 anos, quando a Coreia do Sul se estava a libertar dos militares e a evoluir para a democracia que é atualmente. E ainda havia muita gente viva que se recordava da colonização japonesa, que durou de 1910 a 1945. Mas a memória dessa época continua ainda a marcar as relações entre dois países que são baluartes da democracia na Ásia Oriental, ambos aliados dos Estados Unidos, ambos receosos do poder nuclear da Coreia do Norte, uma ditadura oficialmente comunista.

Um exemplo da sensibilidade dos coreanos face ao período sob domínio japonês aconteceu há dias, quando a famosa a atriz Ha Young elogiou um bisavô médico e veio a descobrir-se que este tinha colaborado com os ocupantes. Seguiu-se um pedido de desculpas, mas também um debate sobre se o bisavô tinha sido um colaboracionista de primeira linha ou não. Muito ativo ou pouco. Afinal, não consta de um dicionário de colaboracionistas com o Japão feito por um instituto de história e que inclui mais de quatro mil nomes.

"Coreia e Japão são dois países plurimilenares, com influência cultural recíproca e episódios guerreiros, como a invasão falhada da Península no final do século XVI, que fez, até hoje, do almirante Yi Sun-sin herói coreano, que tem uma imponente estátua na avenida que conduz ao antigo palácio real."
"Coreia e Japão são dois países plurimilenares, com influência cultural recíproca e episódios guerreiros, como a invasão falhada da Península no final do século XVI, que fez, até hoje, do almirante Yi Sun-sin herói coreano, que tem uma imponente estátua na avenida que conduz ao antigo palácio real." FOTO: Direitos Reservados

Outras memórias dessa primeira metade do século XX vêm por vezes complicar as relações entre Seul e Tóquio, como é o caso das chamadas “mulheres de conforto”, coreanas, chinesas e outras, forçadas a prostituir-se para os soldados imperiais. Também as visitas oficiais no Japão a templos xintoístas onde são reverenciados chefes militares da época, incluindo alguns condenados como criminosos de guerra, atraem regularmente críticas coreanas e também chinesas.

Coreia e Japão são dois países plurimilenares, com influência cultural recíproca e episódios guerreiros, como a invasão falhada da Península no final do século XVI, que fez, até hoje, do almirante Yi Sun-sin herói coreano, que tem uma imponente estátua na avenida que conduz ao antigo palácio real. A imprevisibilidade da Coreia do Norte, de novo aliada de confiança da Rússia, seria um bom motivo para Coreia do Sul e Japão olharem mais para a cooperação futura do que para as desavenças do passado. Também a imparável ascensão da China, próxima da Coreia do Norte, e a suposta boa vontade dos Estados Unidos para com o regime norte-coreano, são motivos extra para Seul e Tóquio se entenderem, de tal forma os seus destinos estão ligados.

Há, admita-se, um claro esforço no sentido de curar as feridas da história, mesmo que o espírito ultranacionalista de alguns setores das duas sociedades o contrarie. Não esquecer que este ano o presidente Lee Jae-Myung visitou Nara, cidade natal da primeira-ministra japonesa, e que em maio foi a vez de Sanae Takaichi se deslocar a Andong, terra de Lee. E no seu discurso de 15 de agosto, Dia da Libertação para os coreanos dos dois lados do Paralelo 38, o presidente sul-coreano apelou ao reforço dos laços com o Japão “através da empatia mútua e do reconhecimento sincero do sofrimento do outro”.

Para Seul, cuja proposta para uma séria negociação de paz com Pyongyang não está a ser acolhida, reforçar laços com Tóquio é importante, e o mesmo se pode dizer para o Japão, que, além das tensões ocasionais com a China (a última por causa do apoio de Takaichi a Taiwan), viu agora o presidente russo visitar as ilhas Curilas, cujas quatro mais a sul Tóquio reivindica.

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