Soma zero, crise energética, 'hyperscalers' e manutenção da ordem internacional multilateral

Jorge Costa Oliveira

Consultor financeiro e business developer

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Tradicionalmente, a ordem internacional liberal liderada pelos EUA e pela UE após a implosão da URSS e o falhanço do modelo económico marxista-leninista, baseava-se na soma positiva: a ideia de que o comércio global e as instituições multilaterais beneficiariam todos os países.

De facto, a progressiva globalização decorrente do multilateralismo comercial e da redução de tarifas e obstáculos não-tarifários aumentaram a riqueza global, levaram enorme investimento a países em desenvolvimento (incluindo deslocalização de empresas de países desenvolvidos), retiraram centenas de milhões de pessoas da pobreza e criaram novos mercados em países em desenvolvimento.

Do mesmo passo, a globalização e o multilateralismo criaram uma enorme interdependência entre as economias dos principais blocos económicos, bem como a emergência de várias potências médias (Brasil, Índia, México) e de uma nova superpotência económica (a China).

A transição no sistema internacional, de uma hegemonia unipolar para uma realidade multipolar, trouxe de volta ao centro do debate o conceito de jogo de soma zero. Essa tese sustenta que o ganho de uma parte (ex: Rússia ou China) representa necessariamente uma perda equivalente para outra (ex: os EUA).

Washington parece ter adotado esta visão, tratando a interdependência económica não como um laço de paz, mas como uma vulnerabilidade estratégica (“weaponized interdependence”), moldando as relações externas norte-americanas hoje: “Se a China expandir a sua influência tecnológica, a segurança nacional dos EUA diminui.”

Além disso, a adoção pela liderança americana da lógica de soma zero transformou o comércio global num campo de batalha de segurança nacional. Em 2026, essa mentalidade não se restringe apenas a conter rivais, mas também a renegociar acordos com aliados históricos, partindo do princípio [neomercantilista] de que qualquer défice da balança comercial é uma perda de soberania económica.

Embora a postura de soma zero americana proteja interesses de segurança no curto prazo, ela importa quebra de cadeias de fornecimento eficientes e aumenta custos para o consumidor final. Acresce que desafios que exigem soma positiva (como alterações climáticas e pandemias) tornam-se reféns da competição geopolítica. Competição em que muitos países do “Sul Global” não desejam escolher um lado, preferindo o “não-alinhamento ativo” para extrair benefícios de ambos os polos.

Embora a [postura de] soma zero na geopolítica dos EUA aparente ser defensivamente pragmática, ela arrisca transformar a multipolaridade – que poderia ser colaborativa – num [desnecessário] confronto constante, promover a fragmentação económica e até gerar riscos desnecessários para os EUA.

Um bom exemplo é o atual ataque ao Irão, que parece ter como finalidade enfraquecer o poderio militar da principal potência militar do Médio-Oriente, inimiga jurada de Israel e alinhada com a China nos BRICS, e mostrar que os EUA podem controlar o comércio de petróleo e gás por parte de mais uma grande potência produtora – cuja produção, tal como a da Venezuela, está canalizada para a China.

Porém, se é certo que o custo do acesso a petróleo e gás por parte da China ficou mais caro, não só não há qualquer benefício para países Ocidentais – incluindo o maior produtor mundial, os EUA –, como coloca em perigo o controlo da inflação, bem como os vultuosos investimentos em centros de dados das grandes tecnológicas (quase todas americanas). Os hyperscalers, que já estavam a sobrecarregar as redes, competem agora pela mesma potência base, que está a ficar mais cara a cada dia.

O mesmo sucede, de forma ainda mais grave, no que concerne ao fornecimento de hélio – um gás de que o Qatar é o maior produtor e exportador mundial (c. 30~35% do total) – que é absolutamente necessário na Saúde (em aparelhos de ressonância magnética), na produção de semicondutores, na exploração espacial, na Defesa e no fabrico de cabos de fibra ótica.

A construção da infraestrutura de AI – de cujos investimentos a economia americana depende para não entrar em recessão – é hoje um palco crucial de um jogo de soma zero para os recursos energéticos.

Apesar de biliões de dólares estraçalhados, de tanta miséria e desgraça criada no Médio Oriente, de tantas infraestruturas energéticas destruídas, de tanto soft power desbaratado, se a liderança americana persistir em ver o comércio internacional sob o prisma de soma zero, isso conduzirá ao seu isolamento.

Porém, a postura dos EUA de Trump não impedem que o resto do mundo mantenha entre si a ordem liberal que gerou prosperidade a nível planetário em termos nunca anteriormente vistos. A parafernália legal internacional está montada. Se os demais blocos económicos e países desejarem manter as regras do comércio internacional sob a égide da OMC, continuando a porfiar pela soma positiva decorrente do multilateralismo comercial, livre comércio e interdependência económica, devem fazê-lo. O comércio internacional, os acordos multilaterais e a parafernália institucional que o regula funcionará bem, talvez melhor até, sem os EUA como parte desses acordos multilaterais.

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