Novos recursos, re-olhar a Escola

Isabel Santos Rosa

Professora aposentada ESE Setúbal

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Olhar o presente tornou-se um exercício complexo, agridoce.

Percebemos um mundo com guerras centradas em interesses de capricho, populações a viver com crescentes dificuldades, o omnipoder incontrolado das plataformas digitais… Por outro lado, acertam-se respostas às manipulações concertadas, o movimento de estudantes da Sérvia ganhou eleições à extrema-direita e renovou o panorama parlamentar. No Brasil venceu a democracia.

Na Europa, problemas prementes dos jovens como a habitação, os salários e as perspetivas bélicas ganharam peso social e estão a desencadear fortes ações de protesto.

Os movimentos tornaram-se internacionais já que muitas das lutas assentam no mesmo tipo de problemas e, na atualidade, já se percebeu que as mudanças implicam articulação.

Também em Portugal os estudantes ensaiam formas de contestação, debatem a falta de investimento na Educação e na transição energética. Lutam pela defesa do Ambiente e por Escolas de qualidade.

Devido ao crescente desinvestimento, a Educação está, novamente, confrontada com diversos e graves problemas: falta de docentes, falta de formação de professores, organização da sala de aula centrada na figura do professor, formas tradicionais e desmotivadoras de trabalhar os curricula.

É interessante verificar que, no presente, a escola se debate com muitos dos problemas a que o 25 de Abril queria e permitiu encontrar respostas.

Foi possível valorizar a profissão docente e realizar a Profissionalização em Serviço, centrada na escola e desenvolvida em três grandes áreas: Científica, Sistema Educativo e Escola.

Foram criados Centros de Recursos Educativos, Mediatecas e Bibliotecas Escolares que, em muitos casos, desenvolveram novas formas de utilização pedagógica de recursos diversificados em oposição ao manual único.

A Informática foi trabalhada enquanto instrumento de abertura ao digital. A Educação para os Media e o Pensamento Crítico entraram como vertentes muito importantes da apropriação e reflexão sobre os saberes.

Lentamente, muitas destas valências que se verificam ser fundamentais para uma cidadania sólida e consciente, foram sendo apagadas e destruídas.

A Escola inclusiva, atualizada, promotora da autonomia, de ações reflexivas e fundamentadas, que centra o processo ensino-aprendizagem no aluno/turma, que debate as formas de controlo e de manipulação, foi sendo esbatida e subjugada. As políticas educativas reabriram as portas às aulas magistrais, ao manual único, à falta de professores, à resolução apressada e impensada dos problemas.

É notório o desencanto com a Educação. A Escola está confrontada com índices alarmantes de problemas de Saúde Mental de crianças e jovens, com Redes Sociais aliciantemente manipuladoras, com a Inteligência Artificial. São fundamentadas as preocupações com a Formação de Professores de qualidade, com as relações interpessoais, com a inclusão social e escolar, com as formas de apropriação do saber e com a organização escolar.

Continua pertinente a necessidade de se (re)criarem Centros de Recursos Educativos, nas escolas de todos os níveis de ensino, com diversas valências e com equipas multidisciplinares. Continua urgente que cada escola desenvolva um projeto educativo que envolva fortemente toda a comunidade escolar e ajustado à realidade local/regional. Continua essencial valorizar a profissão docente e criar modelos de formação adequados e de qualidade. É vital desenvolver uma Educação contemporânea.

A Escola Superior de Educação de Setúbal foi um exemplo de como imaginar e desenvolver projetos, curricula, métodos e estratégias, respostas eficazes para os desafios que se perfilavam.

A sua experiência assentou num projeto de formação inovador que valorizou a articulação entre professores e técnicos e reconheceu a importância do trabalho coletivo na construção de uma instituição educativa.

O Centro de Recursos Educativos – CRE – foi um desses projetos. A formação de professores, os métodos de trabalho, a interação alunos-professores-técnicos, os processos de apropriação dos saberes, a produção, utilização e divulgação de recursos diversificados, a disponibilização de equipamentos foram as grandes linhas de ação. Trabalho assente na articulação com diversas instituições nacionais e internacionais, organizações formais e não formais.

No âmbito das comemorações dos 40 anos do CRE foi elaborado um livro – Centro de Recursos Educativos: Inovação na Escola – que regista o percurso, as experiências e o trabalho ali desenvolvidos, entre 1986 e 2022. A publicação, que será apresentada por António Nóvoa (dia 31 outubro, na Biblioteca do Fórum Grandella) recupera uma memória institucional construída por uma equipa que, ao longo de várias décadas, contribuiu para a formação, a inovação pedagógica e a criação de recursos ao serviço da Educação.

Mais do que revisitar o passado, este livro convida a refletir sobre os desafios atuais das instituições educativas e sobre a importância de preservar e renovar projetos pedagógicos que coloquem a formação, a cooperação e a democratização da educação no centro da sua ação.

A sessão constitui uma oportunidade para dar a conhecer um percurso de inovação educativa e reabrir o debate sobre o papel da formação de professores, dos projetos pedagógicos institucionais e dos Centros de Recursos Educativos na construção de uma escola mais democrática, inclusiva, participativa.

As experiências vividas e relatadas podem ser um bom substrato para colaborar no desenvolvimento de uma Educação contemporânea e, como é proposto pela UNESCO, das Escolas dos Futuros.

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