Juntar as peças do Lego

Nathalie Ballan

Administradora e diretora de Business Development da The Equator Company

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Em setembro, Lisboa acolheu o Business of Impact, o encontro da Impact Europe – rede europeia de fundações, empresas, investidores e bancos que financiam soluções com impactos sociais ou ambientais. Durante dois dias, a conversa concentrou-se em questões de construção: quem assume o primeiro risco, como se juntam projetos pequenos para interessar investidores grandes, que regras permitem a várias fundações decidir em conjunto, o que resta de um projeto quando o financiamento acaba?

O contexto ajuda a ler esta agenda. Em 2024, os investidores europeus e britânicos detinham cerca de 190 mil milhões de euros em investimento de impacto em ativos não cotados. É mais do dobro do que tinham dois anos antes e, ainda assim, apenas 2,5% do universo de ativos que o estudo de referência considera elegível. As fundações europeias gerem perto de 650 mil milhões de euros em património. Há capital disponível, e a sua eficácia depende da estrutura que o liga aos problemas que pretende resolver.

Dessa discussão emergem cinco tendências que cruzam atores privados e políticas públicas. A primeira é a repartição do risco em camadas. Fundações e investidores públicos aceitam perder primeiro – ou garantem parte do investimento – para que seguradoras, bancos e fundos de pensões entrem em projetos que de outra forma não financiariam. O dinheiro filantrópico é cada vez mais usado para atrair outro capital. A segunda decorre da primeira. A maior parte das iniciativas sociais é pequena demais para os montantes mínimos com que operam os grandes investidores, e ganham peso as estruturas que agregam projetos e fazem a ponte entre quem executa e quem financia.

A terceira diz respeito à colaboração entre financiadores, amplamente defendida e difícil de praticar, porque as organizações estão desenhadas para decidir sozinhas, com orçamentos anuais integralmente comprometidos, concursos fechados, mandatos curtos, mudanças frequentes nos órgãos de gestão. As parcerias que ganham escala dotam-se de regras próprias, com compromissos plurianuais, decisões partilhadas e um esforço proporcional à capacidade de cada parceiro.

A quarta é a medição de impacto com consequências. Surgem contratos em que parte de um empréstimo se converte em doação quando os objetivos sociais acordados são cumpridos, ou em que a remuneração de quem gere o capital depende dos resultados. Cresce, com isso, a exigência de honestidade sobre o que se sabe: uma estimativa com margem de incerteza assumida serve melhor a decisão do que um número preciso cuja origem ninguém consegue explicar.

A quinta é pensar a continuidade desde o primeiro dia. Os programas financiados por doações ou fundos públicos passam a ser desenhados para sobreviver ao fim desse financiamento, com receitas próprias, procura estável e capacidade local que permaneça no terreno.

As cinco tendências apontam na mesma direção de tornar o impacto financiável por capital que espera retorno. É um avanço real, com um limite que o próprio debate reconhece, sem resolver. Parte das respostas sociais nunca gerará receitas previsíveis. O acompanhamento de pessoas idosas isoladas, o apoio a famílias em crise, ou o trabalho comunitário de longo prazo produzem valor que dificilmente se converte em fluxo financeiro. Para estas respostas, o financiamento público continua incontornável, e a doação plurianual que o complementa merece o mesmo rigor de desenho que os instrumentos de mercado.

O risco é que a pergunta "este projeto conseguirá um dia atrair crédito ou investidores?" passe a filtrar todas as decisões de financiamento. Nesse caso, os recursos tenderão a concentrar-se nas iniciativas que já têm receitas, ou estão perto de as ter – como as entidades equiparadas a empresas sociais que vendem serviços e poderão ser rentáveis – e a afastar-se das que nunca terão rentabilidade financeira direta e que dependem de doações.

São precisamente estas respostas que sustentam a vida económica. Em Portugal, mais de 80% dos equipamentos sociais, creches, lares e apoio a pessoas com deficiência, pertencem a entidades sem fins lucrativos, e em muitas freguesias do interior são as únicas a prestar estes cuidados. É esta rede que permite a quem tem filhos pequenos ou pais idosos continuar a trabalhar, e quando ela falha o custo chega às empresas. A Comissão Europeia reconhece que as responsabilidades de cuidado afastam milhões de mulheres do mercado de trabalho, ou empurram-nas para tempo parcial, agravando a escassez de mão de obra, de competências e as desigualdades de género. Assim como a precariedade.

No caso específico de Portugal, destacam-se três opções. A primeira cabe às empresas e passa por ligar o investimento social àquilo de que dependem. Uma empresa cujos trabalhadores precisam de creches e de apoio a pais idosos tem razões operacionais para financiar, com compromissos de vários anos, as organizações que prestam esses cuidados nos territórios onde opera, e para concentrar aí uma parte dos donativos que hoje se dispersam.

A segunda cabe às fundações, aos bancos e às seguradoras e implica juntar recursos num instrumento comum, que partilhe o risco, agregue projetos demasiado pequenos e decida com regras claras. As peças existem no país. Falta montá-las.

A terceira cabe ao Estado, que já testou o pagamento por resultados com os títulos de impacto social. Importa definir, com as organizações do setor, indicadores partilhados sobre o que esta rede produz, para que financiadores públicos e privados decidam com base em resultados, e criar os instrumentos que ainda não existem, como os fundos aconselhados por doadores ou a dedução fiscal da cedência de trabalho qualificado.

No entanto, qualquer destas escolhas exige aceitar que parte desta rede continuará a depender de doação e de financiamento público, e que essa parte merece a mesma qualidade de planeamento que o resto do sistema.

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