Pasteur foi o primeiro a usar a expressão vacina para designar a imunização artificial obtida pela injeção de agentes microbianos que provocam a produção de anticorpos, mas sem causar a respetiva infeção. Homenageou, assim, o médico inglês Edward Jenner por ter praticado a inoculação sistemática da população com a substância obtida das lesões da vaccinia (doença das vacas) na perspetiva da prevenção da varíola.Ora, na época de Pasteur (segunda metade do século XIX) a preocupação dos cientistas era conseguir atenuar ou inativar as bactérias e vírus, a fim de, uma vez introduzidos no corpo humano, poderem garantir a capacidade de produção de anticorpos específicos, “enganando” o sistema imunitário.Desde então, muitas doenças passaram a ser consideradas como evitáveis pela vacinação: raiva, tuberculose, sarampo, papeira, rubéola, poliomielite, tétano, tosse convulsa, difteria, gripe, hepatite B, bronquiolite pelo vírus sincicial respiratório, meningites bacterianas, doença invasiva pelo pneumococo, infeção por vírus do papiloma humano, varicela, gastroenterite pelo Rotavírus, zona e covid-19, entre outras indicadas para determinadas circunstâncias, em particular para viajantes (febre tifoide, hepatite A e febre amarela) ou, para pessoas de grupos de risco (como mpox, hepatite A e para a gripe H5 zoonótica).Em 2020, o mundo foi confrontado com a emergência de um novo vírus respiratório que no ano anterior tinha surgido na China. Refiro-me à grande Pandemia de covid-19 que tantas medidas dramáticas de controlo impôs: isolamento, quarentena, cercas sanitárias e confinamentos obrigatórios. Eis senão quando, em plena propagação da infeção, uma vacina foi anunciada. Todos nós ficámos impressionados não só pela rapidez da sua preparação, como também com a imensa escala de fabrico pelas empresas farmacêuticas que, em pouco tempo, a colocaram no mercado global.Para tal, foram essenciais as descobertas realizadas pela húngara Katalin Karikó e pelo americano Drew Weissman que utilizaram uma nova tecnologia para iludir as defesas imunológicas através da utilização de ARN mensageiro: inoculação da proteína que dá instruções às células do organismo humano para fabricarem uma partícula do vírus que as próprias células imunitárias, ao considerá-la estranha, induzem a produção de anticorpos. Conquista científica que justificou a imediata atribuição do Prémio Nobel (2023).Em junho de 2026, a revista The Lancet, depois de biliões de vacinas aplicadas, publicou um estudo que confirma a eficácia e segurança da tecnologia ARNm e a sua utilidade para prevenir mais infeções, cancros e doenças autoimunes.(Continua) www.dossierdelutas.pt