Sobre prevenção (I)

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

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Todos os especialistas em saúde pública consideram que Portugal investe pouco em prevenção. É verdade. Mas, também, reconhecem a dificuldade em quantificar os montantes provenientes do Orçamento do Estado e dos bolsos dos cidadãos dedicados à prevenção de doenças, de acidentes e de riscos para a saúde.

Por outro lado, admitem a urgência em privilegiar as medidas de prevenção como centro das políticas públicas, não apenas como instrumentos para a promoção da saúde, mas como pilares estratégicos essenciais à sustentabilidade económica do Sistema e do próprio país.

A população envelhecida, associada à elevada carga de doenças crónicas, está na origem da alta pressão exercida sobre o Sistema de Saúde, uma vez que os recursos são limitados. Perante este cenário demográfico, a opção em reforçar os meios para tratar doenças não é uma medida inteligente, visto que existe a possibilidade de evitar que essas doenças aconteçam ou que apresentem complicações graves.  

A prevenção das doenças deve ser estruturante, contínua e integrada com envolvimento de todos os setores, todos os ministérios e de todos os departamentos do Estado, a todos os níveis da Administração Pública. Neste sentido, as decisões serão eminentemente políticas, mas sempre baseadas em comprovação científica inquestionável.

A ideia principal é colocar o interesse da saúde em todas as políticas como condição de boa governação. É fundamental assim decidir para responder às necessidades reais da sociedade. Uma prioridade absoluta.

Em 2019, a pandemia demonstrou que, perante uma ameaça real, o Estado é capaz de agir rapidamente, mobilizar recursos adicionais e tomar decisões acertadas. Ao olharmos para trás, percebemos, agora, que essas decisões sucederam com eficácia porque foram assumidas por todos os órgãos de soberania e amplamente participadas. 

A meu ver, estas terão sido as maiores lições: rapidez e consistência da comunicação e, antes de tudo, a prevenção (promoção da literacia, vacinação e diagnóstico precoce).

Por isso, a ilação principal terá sido a dimensão política. Mais prevenção e mais vacinação. Proporcionar o envelhecimento protegido. São as estratégias que devem ser realçadas.

Curiosamente, a Itália de Meloni decidiu adotar um novo Plano Nacional de Prevenção para 2026-2031. Um modelo que não pode ser ignorado.  Ora, Portugal e Itália são países muito envelhecidos. Registam elevadas taxas de esperanças de vida, mas com excesso de proporção de anos vividos com doença e incapacidade. Os respetivos sistemas estão confrontados com indefensáveis listas de espera, dificuldades de acesso e escassez de profissionais.

(Continua)

franciscogeorge@icloud.com 

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