Sobre os morcegos. Uma ameaça inesperada

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

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As enormes árvores frondosas da rua onde eu residia em Bissau eram fantásticas, não só pelo porte gigantesco, pelo tom verde permanente, mas, sobretudo, porque protegiam a minha casa dos intensos raios solares tropicais. A sombra fresca era quase permanente ao longo do dia. Mas, mais do que isso, os seus frutos eram magníficos: deliciosas mangas da Índia. Havia, porém, um senão! Ao anoitecer, quando os morcegos que as povoavam acordavam, ouvia-se uma algazarra, perturbadora, provocada pela disputa dos frutos. Era uma gritaria que incomodava quem por ali passava por perto. Depois, repentinamente, começavam a esvoaçar e saíam em bandos pelo céu escuro. Era o início da vida noturna dos morcegos.

Aos meus filhos ensinava, então, que eram animais pacíficos, mamíferos com asas e que nada havia a temer pela proximidade deles.

Ora, como a verdade não é bem a que relatava nessa época, resolvi escrever, hoje, sobre morcegos à luz dos atuais conhecimentos. Nos últimos anos, no âmbito de pesquisas conduzidas por especialistas em biologia, virologia e epidemiologia sucederam-se descobertas, cientificamente comprovadas, que motivam, afinal, justificado desassossego.

Antes de tudo, lembremos que os morcegos são os únicos mamíferos verdadeiramente voadores. Vivem em todos os continentes. Pertencem à ordem dos quirópteros, designação com origem no grego antigo: cheir (mão) e pteron (asa), indicando que as mãos têm asas (membranas alares). Os quirópteros subdividem-se em 21 famílias, 237 géneros e em centenas de espécies diferentes (quase 1500). Distinguem-se pela corpulência que apresentam, pelos locais que habitam e pelo tipo de alimentação. Há espécies que se alimentam de insetos (cerca de 70%) e outras de frutos (como no caso da minha casa de Bissau). Apenas 3% são hematófagas.

A este propósito, os biólogos e os ambientalistas realçam a ação benéfica dos morcegos, uma vez que assumem, em diversos ecossistemas, uma importância principal na dispersão de sementes, na polinização e na redução da densidade populacional de insetos noturnos (pela respetiva atividade predadora).

Mas, em sentido contrário, os virologistas apontam graves riscos para a saúde humana associada aos morcegos, porque podem ser o reservatório de numerosos agentes patogénicos, nomeadamente dos vírus da gripe, entre muitos outros. Como reservatório de vírus, além de permitirem a sua sobrevivência na natureza, também os transmitem a outros hospedeiros suscetíveis, através da eliminação das fezes. Os cenários reais que protagonizam, já demonstrados, constituem motivo de preocupação.

(Continua)

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