Tal como já sublinhei, em Portugal, a melhoria das condições de vida proporcionada pelas grandes obras públicas de saneamento básico (abastecimento de água, redes de esgotos e gestão do lixo), realizadas depois da adesão à CEE (1986), foi imensa. O perfil de doenças infeciosas, até então existente, mudou para sempre. Os surtos de cólera não mais regressariam e o vírus da hepatite A deixaria de circular nas pessoas residentes no país.
Em 1987, voltei, novamente, a estar confrontado com uma epidemia de cólera que eclodiu na Guiné-Bissau. O ministro da Saúde guineense, Nunes Correia, liderou com competência as operações de controlo quer pela rapidez de atuação, quer pela transparência da comunicação (nacional e internacional).
Na altura, percebeu-se que as tradicionais cerimónias fúnebres representavam riscos de propagação indicados pelo aparecimento de novos focos coincidentes com o itinerário dos cortejos dos funerais. Foi necessário intervir sem demoras. Sem hesitações. Para tal, organizaram-se campanhas de esclarecimento. com o apoio dos “homens grandes” das respetivas regiões no sentido de assegurar, antes do enterro, o afastamento de todos os contactos diretos com os corpos.
As ajudas das agências de cooperação (internacional e bilateral), que logo chegaram a Bissau, foram essenciais para controlar a crise. Realço o voo especial da TAP que transportou medicamentos, nomeadamente frascos com solução para tratar os doentes com desidratação, por via endovenosa, além de antibióticos.
Por outro lado, os americanos enviaram um especialista do Centro de Controlo de Doenças (CDC) que, pela primeira vez, ensaiou uma nova técnica de diagnóstico através de um teste rápido às fezes dos doentes com diarreia aguda. Um sucesso.
Também a União Europeia financiou a deslocação de uma equipa dos Médicos Sem Fronteiras, especialmente dedicados à logística e gestão.
Poucas semanas depois a epidemia terminou.
Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou que persistem epidemias de cólera em países da África Ocidental e Central onde ocorreram mais de 61 mil casos durante os primeiros cinco meses de 2026. Por isso, alertou para a urgência em reforçar a adoção de medidas preventivas: vigilância para identificação precoce de novos casos, comunicação de risco e para os óbitos a promoção de enterros seguros.
Para viajantes que se deslocam a zonas de risco, a OMS recomenda a administração de vacinas orais contra a cólera que, apesar de serem protetoras, não substituem os cuidados de higiene que devem ser rigorosos, principalmente no que respeita ao consumo de água e de alimentos crus.
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