Uma vez resumido o surto de cólera de 1971 divulgo, hoje, notas sobre a epidemia de 1974. Era o tempo do Movimento das Forças Armada (MFA) e da Revolução.
Arnaldo Sampaio continuava como Diretor-Geral da Saúde. Três anos antes tinha sido ele mesmo a liderar a crise que começara em Almada. Agora, em 1974, logo percebeu que estava perante um problema de maior dimensão quando o Instituto Ricardo Jorge confirmou que a identificação do vibrião colérico era do grupo El Tor, do serotipo Inaba, que circulava em Angola.
A epidemia terá começado no Algarve, em abril. Estendeu-se, pouco depois, a todo o país, sobretudo a zonas degradadas existentes nas regiões periféricas dos centros urbanos, nomeadamente Lisboa e Porto.
Para conter a propagação da cólera, a DGS multiplicou ações informativas através dos órgãos de comunicação social.
Participei, como interno dos Hospitais Civis de Lisboa, em escalas no posto de atendimento expressamente criado para o efeito no Hospital Curry Cabral. As pessoas doentes com sintomatologia suspeita (caracterizada por início súbito de náuseas, vómitos e diarreia profusa) acorriam em grande número. Aqui, depois do exame clínico e da colheita de fezes para análise laboratorial, cada doente recebia conselhos sobre higiene individual e familiar, e era medicado com antibiótico apropriado (tetraciclina) e sais destinados a evitar a desidratação. Os casos graves eram internados.
As populações residentes nos bairros sem infraestruturas de saneamento básico foram vacinadas. Os serviços da DGS forneciam garrafas com hipoclorito, para desinfeção da água de consumo e lavagem de alimentos crus (como saladas).
No total, entre abril e novembro, registaram-se 2467 casos de cólera (48 óbitos), confirmados laboratorialmente, além de muitos milhares de infeções frustes e assintomáticas que não foram notificadas.
Na altura, estranhei a posição publicamente assumida pelo antigo secretário de Estado, Gonçalves Ferreira, que escreveu uma “carta aberta” a censurar e a apontar duras críticas ao seu sucessor do MFA, Cruz Oliveira. Afirmava que as medidas que ele tinha decidido, em 1971, obtiveram mais sucesso do que as tomadas pelo Governo Provisório que considerava “desacertadas”.
Sem beliscar a estima que guardo pelo meu mestre Gonçalves Ferreira, reconheço que as observações que expressou não tinham fundamento. Estariam turvadas por motivos políticos. Felizmente, para ele, os seus comentários não tiveram notoriedade, visto que foram imputados ao ex-governante de Marcelo Caetano, ressentido por não ter sido chamado pelo novo Regime a apoiar o controlo da crise de 1974.
(Continua)
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