Sobre memórias da cólera (II)

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

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Para retratar Portugal de 1970 realço, novamente, os resultados do Inquérito à Habitação promovido pelo Ministério das Obras Públicas, em plena Primavera de Marcelo Caetano: 60% dos alojamentos não usufruíam de água canalizada (mas, apenas 25% tinham boas condições de abastecimento por rede predial) e só um terço dispunham de energia elétrica. A nível nacional, 60% dos domicílios não possuíam cozinha, retrete e casa de banho em condições aceitáveis.

A par da manifesta debilidade das infraestruturas de saneamento básico, parte significativa da população trabalhadora vivia em barracas desprovidas dos mínimos requisitos de habitabilidade e de dignidade social. Na capital, nesse ano, 90 mil pessoas moravam em 18 mil barracas que expressavam o atraso do país.

Estes “bairros de lata”, marcados pela falta de higiene, representavam, assim, riscos para a emergência de doenças associadas à transmissão hídrica por via fecal-oral de agentes microbianos patogénicos (como a cólera, diarreias agudas, hepatite A, entre outras).

Foi neste ambiente que, na região da Grande Lisboa, eclodiu a epidemia de cólera de 1971. Tudo começou a 15 de setembro quando foi comprovado laboratorialmente o primeiro caso numa criança de 6 anos de idade que residia na Margem Sul do Tejo num aglomerado, com cerca de 200 barracas, localizado junto aos Estaleiros Navais da Lisnave.

Foi confirmada a identificação do vibrião colérico da estirpe El Tor. As investigações, logo conduzidas pelos especialistas da Direção-Geral da Saúde (DGS), apontaram como provável origem do surto os tripulantes doentes do navio petroleiro norueguês Thorshov, que se encontrava em manutenção nas Docas da Margueira proveniente de Valência, onde casos de cólera tinham sido registados.

Depois de 21 de setembro, o vibrião infetou mais seis pessoas daquele bairro e diversos residentes em localidades vizinhas de Almada.

O período de incubação da cólera é, em média, de 2-3 dias.

Na altura, o médico especialista em saúde pública, Francisco Gonçalves Ferreira, que era secretário de Estado do ministro Baltazar Rebelo de Sousa, organizou o controlo da epidemia, nomeando uma Comissão liderada por Arnaldo Sampaio e que integrava peritos da DGS, incluindo Lobato Faria (engenheiro sanitário).

Imediatamente, foram realizadas ações preventivas destinadas a conter a propagação da cólera: vacinação seletiva de pessoas residentes nos focos identificados e distribuição de Fanasil (sulfamida para quimioprofilaxia). Os doentes foram tratados no Hospital Curry Cabral. A epidemia, que terminou a 25 de novembro, registou 89 casos (4 óbitos).

 (Continua)

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