Sobre a História da Medicina (IV)

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

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Uma vez chegados à fantástica segunda metade do “nosso” século XX, retomo a enumeração das principais descobertas que mudaram a vida das pessoas, no que se refere à prevenção das doenças, à conservação da saúde e à preparação de medicamentos inovadores.

Preciso.

Começo por assinalar a cidade universitária de Cambridge, em 1953, uma vez que foi aí que o cientista inglês Francis Crick (1916-2004) e o biólogo norte-americano James Watson (1928-2025) decifraram a estrutura helicoidal da molécula de ADN. A apresentação do famoso modelo da dupla hélice constituiu uma viragem principal no conhecimento científico porque o ADN engloba as instruções genéticas contidas nos núcleos das células. Marcou uma nova era. Por isso, a quem vai a Cambridge, recomendo uma visita ao pub The Eagle, próximo do King’s College, onde Crick e Watson costumavam ocupar uma mesa do canto para as refeições e convívio.

A primeira vez que aí entrei e reparei na placa que assinala a habitual mesa deles, senti uma estranha satisfação. Conta-se que um certo dia viram cair um colega devido ao excesso de cerveja que bebera e que o movimento helicoidal antes da queda simbolizou um momento de inspiração... Verdade ou não, Watson, em 1967, escreveu no livro de memórias que publicou que tinha sido neste pub que Crick, em 1953, gritara para quem estava por perto poder ouvir: “Descobrimos o segredo da vida!”

O ano de 1955 foi marcado pela introdução da vacina injetável contra a poliomielite (paralisia infantil), devida ao virologista norte-americano Jonas Salk (1914-1995). A pólio passaria, assim, a ser uma infeção evitável e ainda mais facilmente depois da introdução da vacina por via oral preparada pelo polaco Albert Sabin (1906-1993). Tal como aconteceu com a erradicação da varíola (1980), a poliomielite aguda, a nível mundial, passará a ser uma doença do passado. Em Portugal, o último caso foi diagnosticado em 1986, em consequência do sucesso do Programa Nacional de Vacinação.

Em 1960, nos Estados Unidos da América foi lançada a pílula anticoncecional, que foi desenvolvida pelo biólogo norte-americano Gregory Pincus (1903-1967). A este propósito é interessante salientar que as pesquisas foram financiadas pela milionária Katharine McCormick (1875-1967). Um magnífico exemplo de mecenato a favor do planeamento da família, na perspetiva de os filhos serem pretendidos. A pílula representou, assim, o fim das gravidezes acidentais, involuntárias e indesejadas. A Mulher passaria a engravidar por vontade própria. Ser ela a decidir da sua vida reprodutiva. Uma revolução libertadora para a saúde sexual da Mulher.

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