Sobre a História da Medicina (II)

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

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Como já sublinhei, a partir de meados do século XIX sucederam-se descobertas científicas que, paralelamente ao desenvolvimento socioeconómico, viriam a explicar o extraordinário incremento da longevidade média. A esperança de vida ao nascer aumentou mais de 50 anos, desde então e até hoje.

Retomo os grandes marcos da Medicina.

Em Saúde Pública, a viragem para o século XX é assinalada pela introdução da desinfeção da água pelo hipoclorito de sódio (lixívia) dos sistemas públicos destinados a consumo humano. Em 1905, a cloração da água de forma contínua, foi proposta pelo médico britânico Alexander Houston (1865-1933) na cidade de Lincoln (Inglaterra), com o objetivo de controlar a epidemia de febre tifoide que aí ocorria. Os trabalhos conduzidos por Sir Alexander demonstraram a eficácia do cloro em garantir a potabilidade da água distribuída às populações.

Rapidamente, a medida foi adotada a nível global. Um sucesso. Os especialistas em epidemiologia são unânimes em considerar que o método de introduzir cloro na água foi a descoberta que mais contribuiu para a promoção da saúde em todo o mundo (a par da vacinação). Salvou muitos milhões de pessoas ao prevenir doenças infecciosas transmitidas pela água. A mortalidade infantil diminuiu.

Em 1910, o cientista francês Charles Nicolle (1866-1936) descobriu que o tifo é transmitido pela picada de piolhos, motivo pelo qual viria ser laureado com o Prémio Nobel da Medicina.

Em 1921, o isolamento e purificação da insulina pelos cientistas da Universidade de Toronto, Frederick Banting (1891-1941) e Charles Best (1899-1978), marcaram o começo de uma nova vida para as pessoas diabéticas. Acrescentaram futuro aos doentes. Uma conquista admirável.

Curiosamente, dois anos depois, Banting receberia o Prémio Nobel, mas, estranhamente, o seu colaborador, ainda estudante, Charles Best seria excluído, apesar de ter sido um dos investigadores (tinha apenas 22 anos de idade). Só muitos anos depois (1972), a Fundação Nobel reconheceria que a omissão de Best tinha sido um erro!

Também no mesmo ano (1921), os franceses Albert Calmette (1863-1933) e Camille Guérin (1872-1961) iniciam a vacina contra a tuberculose que ficou designada como Bacilo de Calmette-Guérin (BCG). Uma conquista universal na prevenção da tuberculose.

Em 1928, o médico britânico Alexander Fleming (1881-1955) descobriu a penicilina, inaugurando a era dos antibióticos para tratamento de infeções de natureza bacteriana. Logo depois, a molécula inicial foi modificada no sentido do alargamento do respetivo espectro de ação e da facilidade de administração por via oral.

(Continua)

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