‘Snova Spacibo, Gospodin Putin’

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Há quatro anos escrevi, noutras páginas, uma coluna chamada Spacibo, Gospodin Putin.

Era março de 2022, cinco dias após a invasão, e a ironia ainda cabia numa lista de agradecimentos: a NATO acordara, a Europa rearmava, o mito militar russo desfazia-se perante Kiev. Quatro anos depois, o dispositivo retórico mantém-se. A ironia, não. Há muito menos para agradecer. E o que há custa infinitamente mais do que qualquer cálculo antecipava.

É de agradecer a confirmação de que Putin não é o decisor frio que o seu marketing vendia, mas um líder consumido pelo ego e pela mitomania. Ao persistir num erro crasso, conseguiu o que mais temia: o maior alargamento da NATO na História, com a Finlândia a acrescentar 1300 quilómetros de fronteira e a Suécia a fechar o Báltico à projeção naval russa.

Até Trump funcionou como ricochete: ao ameaçar os aliados, acelerou a autonomia estratégica europeia. Putin quis dividir o Ocidente e forçou-o a crescer. Foram os ucranianos a pagar o preço.

É de agradecer ter posto fim ao sono europeu. Vinte e três países cumprem hoje os 2% do PIB em Defesa. Mas a gratidão é amarga: foi precisa a maior carnificina desde 1945 para comprarmos extintores. O mesmo vale para a energia, conquistada à custa das faturas mais pesadas para os consumidores mais vulneráveis.

É de agradecer ter exposto o encolhimento estratégico da Rússia. A Síria deixou de ser vitrina de poder; na Venezuela, em Cuba e em África, Moscovo tem cada vez menos para oferecer além de retórica. A reputação militar, alimentada por intervenções cirúrgicas na Geórgia e na Crimeia, ruiu perante a logística falhada, a doutrina inexistente e a corrupção estrutural. As escolas de guerra estudarão esta campanha durante décadas, não como modelo, mas como aviso.

É também de agradecer ter transformado a China no árbitro de uma paz que ninguém lhe pediu e ter reduzido a Rússia a vassalagem existencial. Putin foi a Pequim pedir suporte e saiu como parceiro subalterno. Não aliado: subalterno. Resta-lhe o arsenal nuclear, suficiente para garantir lugar à mesa, mas insuficiente para definir o menu. Putin jogou para restaurar um império. Acabou por hipotecar o que restava dele.

Nunca acreditei numa derrota militar total da Rússia. Quem a prometeu cedeu à pressão do momento. O que me perturba é que, apesar de estar no limiar da derrota estratégica, a Rússia poderia estar hoje numa posição muito pior. Não fosse a inflexão de Trump e as hesitações europeias, o mapa negocial seria mais favorável à Ucrânia. A Europa deu o suficiente para que não perdesse; nunca o suficiente para que pudesse ganhar.

Os números não mentem: quase dois milhões de baixas combinadas, a larga maioria das quais soldados russos, mais de 15 mil civis confirmados, seis a sete milhões de refugiados, metade da capacidade elétrica da Ucrânia destruída. Cada número é uma vida interrompida, uma família dispersa, uma cidade amputada.

Chegamos a 2026 com mais de dois milhões de baixas e mesas de paz em Abu Dhabi e Genebra. Resta um amargo agradecimento pelo erro crasso que Putin cometeu, por puro ego, em fevereiro de 2022. Putin obrigou-nos a escolher entre a paz dos cemitérios e a fadiga das democracias. Apostou no nosso cansaço; respondemos com o rearmamento de um século. Se a Europa e Kiev recusarão esse guião ou cederão ao peso do tempo, é a questão que 2026 ainda não respondeu.

Obrigado, senhor Putin: hoje todos sabemos que, consigo, a paz é apenas o intervalo para a próxima guerra.

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