Quando, em 2022, um estudo assinado por Gregory Clark revelou que, no Reino Unido, o apelido e a linhagem familiar eram mais importantes do que a formação académica para garantir um estatuto socioeconómico, riqueza e sucesso a longo prazo, foram várias as vozes críticas que se fizeram ouvir um pouco por todo o mundo. E Portugal não foi exceção.A investigação, coordenada pelo economista, avaliou dados referentes a quatro séculos de História. As conclusões foram claras: a mobilidade social é muito bonita, mas é, sobretudo, uma ilusão. Em Portugal, apesar de gostarmos de dizer que é diferente, os dados mostram-nos precisamente a mesma tendência, ainda que não tenhamos trabalhos que considerem uma série tão longa. Dados do estudo A Broken Social Elevator? How to promote social mobility, da OCDE, revelaram recentemente que a mobilidade social continua fortemente dependente do nível de instrução dos pais e do local de residência, sendo historicamente mais fraca em países com níveis mais elevados de desigualdade. Portugal incluído.Numa altura em que se multiplicam os arautos do sucesso empresarial, que prometem ensinar aos mais jovens como enriquecer em menos de nada, apenas com recuso às redes sociais, esquemas financeiros nem sempre muito honestos e “força de vontade”, talvez fosse bom olhar para aquilo que a História nos mostra, com valores e dados concretos.Em Portugal, 24% dos descendentes de pais com baixas remunerações ocupam também uma posição desfavorável na distribuição desse recurso. No entanto, 39% dos indivíduos provenientes da parte superior da hierarquia social conseguem manter esse lugar, valor semelhante à média da OCDE.A verdade é que o nome, a classe social e o ambiente em que se cresce tem um impacto naquilo que é o percurso de vida. Não apenas porque conhecer as pessoas abre portas – e isso, em si, não tem nada de errado – mas também porque há várias regras sociais, de relacionamento e até de conhecimento que é preciso adquirir para se conseguir subir na hierarquia social. Se quiser um exemplo meio absurdo, pense num almoço de negócios: alguém que não aprendeu desde cedo para que servem os talheres das entradas, de peixe, de carne e de sobremesa, será notado no exato momento em que se sentar à mesa numa refeição formal. E não pelos melhores motivos. Isto vale para várias outras coisas – mais e menos absurdas do que este exemplo que lhe dei. E, na hora de escolher um candidato seja para o que for, estas coisas que nos parecem ridículas têm, na verdade, muito mais importância do que possa parecer.É óbvio que há outras variáveis: o código postal é, geralmente, também, indicativo do tipo de escolas que se frequentou; do rendimento médio dos pais; das possibilidades de ter viajado, de ter tido acesso a uma série de programas que contribuem para uma formação integral, de ter conhecido “as pessoas certas”.Se tudo isto significa que não devemos ter ambição de fazer mais, melhor e diferente? Claro que não. A ambição é quem nos faz sonhar, trabalhar e crescer. No entanto, acreditar que o nosso sucesso (seja lá o que isso for) está dependente apenas da nossa vontade, é uma ideia perigosa e totalmente desmontada por, no caso britânico, séculos de factos.Resta-nos, então, desistir? Não. Resta-nos, a todos, trabalhar por uma sociedade mais justa e equitativa, onde as desigualdades se esbatem e o lugar ou a família de onde vimos interesse o menos possível. Algo que, aliás, já conseguimos – os dados do Observatório das Desigualdades mostram, precisamente, que na década de 1990, a mobilidade social era muito melhor que atualmente. Então, se sabemos fazer, não nos deixemos enganar: uma sociedade menos desigual é, naturalmente, uma sociedade muito melhor para todos. Trabalhemos nisso.