Sawe, Aaron e Robson. Desporto é terreno de heróis

Pedro Sequeira

Editor-executivo do Diário de Notícias

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Londres, Boston, Tóquio, Berlim, Chicago, Nova Iorque e Sydney são as cidades-sede do restrito circuito World Marathon Majors, as maratonas mais cobiçadas por atletas amadores e profissionais de todo o mundo. Os prémios de participação acima da média e a prevalência de percursos rápidos, que estimulam a obtenção de recordes mundiais ou pessoais, incrementaram o prestígio destas provas, mas já neste século, com o crescimento exponencial da popularidade da “cultura running” um pouco por todo o planeta, juntou-se ao aspeto desportivo o fenómeno social. E, muito graças a isso, completar as World Marathon Majors tornou-se uma espécie de Santo Graal do atletismo.

Nos últimos dias, as provas disputadas em Londres e Boston ajudaram a dourar ainda mais esse estatuto. Domingo, na capital britânica, pela primeira vez um atleta conseguiu concluir os 42,195 quilómetros de uma maratona (sensivelmente a mesma distância que separa o centro de Lisboa do Cabo da Roca) com um tempo abaixo da mítica barreira das duas horas. O queniano Sabastian Sawe foi o autor do feito, em 01:59.30 horas, menos um minuto e cinco segundos que o anterior recorde do mundo. Mas, pasme-se, também o segundo classificado, o etíope Yomif Kejelcha, terminou a distância em menos de duas horas (01:59.41). E até o terceiro colocado, o ugandês Jacob Kiplimo, obteve um tempo inferior (02:00.28 horas) ao antigo máximo mundial. A isto se chama fazer história.

Tão ou ainda mais inspirador, foi o momento protagonizado, dias antes, na maratona de Boston, por três homens que, até ali, nunca se tinham cruzado na vida. O atleta norte-americano Ajay Haridasse estava a poucos metros da meta quando os seus músculos sucumbiram ao esforço físico. Caído na estrada, os vídeos captados pelo público (que entretanto se tornaram virais) mostram, pelo menos, quatro tentativas que fez para se reerguer e retomar a marcha, sem nunca o conseguir, enquanto dezenas de outros atletas passavam por ele sem lhe prestar auxílio. É então que chega Aaron Beggs. O corredor irlandês procura levantar Haridasse, mas parece incapaz de o fazer sozinho. Segundos depois, junta-se a esta história o brasileiro Robson de Oliveira, que ajuda a amparar o norte-americano. Os três correram abraçados os metros finais da prova, sob aplausos. Tanto Aaron como Robson abdicaram de tentar bater recordes pessoais para ajudar um desconhecido. Numa reação de instinto, falou mais alto a solidariedade e a humanidade.

O fenómeno desportivo não está isento de problemas – corrupção, violência entre franjas de adeptos, antijogo ou doping, só para citar alguns. Mas Sawe, Aaron e Robson, cada um à sua maneira, são a melhor prova de que o desporto é, sobretudo, terreno onde se formam heróis. Homens e mulheres capazes de inspirar milhões de pessoas pelo mundo fora, seja pela dimensão das façanhas individuais e coletivas, seja através de gestos simples que tantas vezes nos esquecemos no nosso dia a dia. É certo que só uma ínfima parte dos mais de 8 mil milhões de habitantes do planeta poderá ter, um dia, o talento e aptidões físicas e mentais para repetir os feitos de Sawe, Cristiano Ronaldo ou Michael Jordan. Mas, muitas vezes, para se ser herói e influenciar positivamente alguém basta seguir o exemplo de Aaron e Robson.

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