Conheci o Intagrist no Verão de 2013, na Mauritânia, após o AQMI ter ocupado Tombuktu, a cidade dos Kel Ansar. A primeira pergunta ao chegar à casa desta família, foi de um primo, “então, trouxeste uma garrafa de Porto?”. Perante o espanto, perguntei como conhecia a bebida. A resposta foi estranha para um português que nunca soube o que foi a repressão e/ou a perseguição.Foi simples, disse o Ansari que não recordo o nome, “quando a Al-Qaeda entrou na cidade, bebemos todo o tradicional à disposição, vodka, whiskie e gin. Quando isso acabou, sobraram os licores, e o Porto é excelente, para enfrentar terroristas!”Depois tive 15 dias de imersão na culinária, na língua, nas sestas e nas caminhadas de domingo até à praia, com paragem para uma malga de leite de dromedária, que na Mauritânia não há camelas!E são esses 15 dias de cheiros e pensamentos, o que não se vê, que contam no meu arquivo íntimo. Foi aliás, um período de muita conversa e muita dela, foi precisamente sobre este projecto. As longas conversas com o ansião Ansari da família, um líder tribal que só não nos acompanhava nas caminhadas, resultaram na publicação de “Dinâmicas Tuaregues: MNLA, Ansar Eddine, MUJAO e Sociedade Civil”, ainda online. O momento era de “guerra ao terrorismo” e quem “andava lá fora a lutar p’la bida”, mantinha olhos e ouvidos atentos!Creio também, que esta exaustiva conversa tida ao longo de dias, em família. Quando o Ansião abre a boca, a família reúne-se à volta da fogueira, a ouvir o velho a falar sobre as origens do seu clã, do seu povo, do vento e do silêncio!Esta terá sido a primeira sistematização deste documentário, já que a preocupação de Intagrist, são os “tudologos”, que falam dos tuaregues, como nós falamos dos ciganos, como se fossem um bloco único e não uma competição entre confederações nómadas, que encontraram poiso seguro no Sahel, desde a Idade Média ao Renascimento.O filme, é sobretudo, um legado aos filhos, em forma de carta de amor. O pai explica aos filhos quem são, de onde vieram e todos/as aos que têm de honrar a memória. No fundo, estamos cá todos/as, fruto do esforço de quem já partiu. “são estes, são os nossos, nunca se esqueçam!”A importância do testemunho Ansari, em 2026, é que continua a ver a sua cidade, Tombuktu, passados mais de 20 anos, de novo sitiada por virtuosos que querem obrigar estes “peles-azuis, filhos do pó e do vento a irem à missa”!Tombuktu espera por mim, e eu espero que esta ressaca, não seja mais um importante documento, da “História do Quotidiano Desconhecido”, que não passa pelas salas de Portugal.