Volto ao tema das reapreciações dos exames do Ensino Secundário cuja data limite para estarem concluídas é esta quinta-feira, de modo a serem conhecidas sexta-feira, 7 de agosto, as classificações reapreciadas. O seu número aumentou, como seria de esperar no contexto de desconfiança sobre a classificação digital, por entre respostas perdidas e falhas de parametrização. Consta que passaram de 6200 para mais de 20.000, tudo a decorrer num prazo curto e sobreposto ao da classificação dos exames de 2.ª fase. Para além de o processo decorrer num período em que os professores devem gozar as suas férias porque, ao contrário de um mito comum, estas não têm três meses.Como professor do Ensino Básico, que não leccionou qualquer disciplina sujeita a provas ModA, não tenho passado pelo ordálio dos professores que têm Secundário, mas tenho acompanhado o processo, até porque vários colegas me enviam exemplos da aterradora burocracia que envolve a inovadora reapreciação digital dos exames.Até agora, para reapreciar uma prova, o relator recebia uma cópia em papel da prova realizada (onde constavam as classificações), as alegações do aluno e um exemplar físico do enunciado e critérios de classificação. Ainda era um bom monte de papéis, não era um processo simples ou rápido, mas era, digamos assim, “orgânico”, mesmo com a necessidade do parecer final.Este ano as coisas mudaram, graças à digitalização e à alegada “desmaterialização” dos processos. Curioso como sou – e tendo o privilégio de estar de férias desde o início da semana –, pedi para me mostrarem, sem quebras de confidencialidade, como as coisas são agora feitas. Não fiquei para morrer, porque é algo que não me seduz, mas fiquei com o espírito bem mais embrutecido só para perceber o que envolve uma reapreciação digital, na “plataforma” (que afinal são duas).Antes de começar a reapreciar, existe um manual para usar a “Plataforma de Reapreciação de provas e exames” (de Julho de 2026, da responsabilidade do JNE), mas também um documento com “instruções para professores relatores” da responsabilidade do JNE regional, a que acresce um Guião Simplificado para a Plataforma de Reapreciação - Exames Nacionais 2026 - 1.ª fase (versão de 28 de Julho, da autoria do EduQA).Lido este material é necessário descarregar três ficheiros pdf com a prova a reapreciar, as alegações apresentadas e as classificações atribuídas. Para a reapreciação são também necessários os ficheiros pdf com o enunciado da prova e os critérios de classificação. Bem como os modelos 20, para a proposta de classificação, alterada ou não, e 21, onde é detalhado o parecer do relator. Ainda há o modelo 20A que resulta das eventuais alterações às classificações originais. Se não se alterar nada, é necessário na mesma ter esse modelo que, com os outros, deve ser carregado numa das plataformas. Cada ficheiro deve ser nomeado convencionalmente com uma designação que ultrapassa os 30 caracteres. A sério, não estou a brincar.Sublinhe-se que, mesmo que as alegações recaiam só sobre um ou dois “itens” (a nova terminologia para “respostas”), o relator deve rever todo o exame e justificar todas as classificações alteradas (ou não) no modelo 21. Tudo em suporte informático, a menos que a pessoa imprima, às suas custas, dezenas de páginas, para não se perder entre os separadores abertos.Sei que o tédio já vos invadiu, pelo que não vou especificar mais.Tudo por 12 euros. Graças à minha crescente tonsura e porque não sou de grandes exigências cosméticas, o meu barbeiro leva-me 15 euros por 20 minutos de corte simples e conversa de circunstância. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico