Radamés, o general egípcio, e Aida, a escrava etíope que afinal é uma princesa, são personagens tão famosas como trágicas às quais Giuseppe Verdi deu vida através da música. No sábado tive oportunidade de assistir a uma representação em Lisboa, no Coliseu dos Recreios, de Aida, e confesso que gostei, mas não é critica musical que aqui vou fazer, até porque este é o jornal em que Joaquim Seabra Pessoa, pai de Fernando Pessoa, escreveu, e ele sim com grande conhecimento, sobre essa ópera quando se estreou em Portugal, em 1878. O que quero realçar é que a inimizade entre egípcios e etíopes, que já existia nos tempos faraónicos que Verdi escolheu para situar a história de amor de Radamés e Aida, mantém-se até hoje, levando cada país, por exemplo, a apoiar lados opostos na guerra civil sudanesa, e causando uma tensão regional tão forte que os Estados Unidos, através do presidente Donald Trump, já se ofereceram como mediadores.Se houver uma nova guerra entre o Egito e a Etiópia será por causa da água do Nilo. O chamado Nilo Branco nasce no Lago Vitória, no Uganda, mas o Nilo Azul, cujo caudal é o mais abundante, tem a sua nascente nas montanhas da Etiópia. A junção de ambos acontece em Cartum, capital do Sudão, e a partir daí o Nilo atravessa as terras desérticas sudanesas e egípcias criando um cenário de vida ao longo das margens até finalmente desaguar no Mediterrâneo. São milhões e milhões de pessoas que dependem das águas do Nilo. E historicamente nenhum povo mais do que os egípcios, que hoje são 120 milhões.Os acordos existentes vêm do tempo colonial, quando os britânicos tinham influência no Egito e também na África Oriental. A Etiópia, que não se revê nesses acordos, justifica a construção da grande barragem no Nilo Azul como uma necessidade para o seu desenvolvimento, pois trará capacidade energética. E promete que a chamada Grande Barragem do Renascimento Etíope trará também desenvolvimento aos outros países da região, através, por exemplo, de eletricidade mais barata. Mas os governos do Cairo e de Cartum, tradicionais aliados um do outro, desconfiam das boas intenções de Adis Abeba. E o Egito já advertiu contra projetos de novas barragens nos afluentes do Nilo situados em território etíope. A Grande Barragem do Renascimento Etíope é um projeto que vem mais de trás, mas tem sido especialmente acarinhado pelo primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, tendo sido inaugurada no final de 2025. Já o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, tal como o seu antecessor Mohamed Morsi, sempre se pronunciou contra qualquer redução do caudal do Nilo, considerando-o uma ameaça existencial para o seu país, e tem feito a diplomacia egípcia alertar em vários fóruns para os riscos de um conflito por causa da água.Trump foi um dos alertados para a situação. E ao receber Sisi na Casa Branca, em janeiro, declarou: “É uma coisa perigosa. Construíram uma barragem onde alguém não está a receber a água que deveria receber e que recebia há milhões de anos, e de repente o fluxo de água é bloqueado por uma barragem gigantesca”.Trump fala de “milhões de anos.” Na realidade, a inimizade entre egípcios e etíopes tem milhares de anos. Já existia nos tempos faraónicos; existia no século XVI quando um filho de Vasco da Gama esteve ao lado dos cristãos etíopes contra as tropas muçulmanas; existia pouco depois de Aida ter estreado no Cairo, em 1871, pois seguiram-se as guerras egito-etíopes; existe hoje, numa clara constatação de que a história, e a geografia, explicam muitos dos comportamentos dos países, e trazem grandes riscos, sobretudo se de um lado está uma nação, a de Radamés, com 120 milhões de habitantes e do outro, a nação de Aida, com 140 milhões. Segundo e terceiro países mais populosos de África, atrás da Nigéria.Mas se a história é de inimizade, já os milénios de civilização acumulada de um lado e do outro poderiam ajudar os líderes de hoje a procurar um compromisso que beneficiasse os dois povos, e os outros da região. O final da Aida de Verdi não é feliz. Mas há finais felizes.