A polémica que actualmente agita o Brasil e que envolveu até um apresentador de televisão famoso brasileiro ultrapassa largamente a figura da deputada Erika Hilton. Nascido Felipe Santos Silva, registado Erika Santos Silva quando se identificou com o género feminino e decidiu afirmar-se transexual, é com o nome político Erika Hilton que tem feito o seu trabalho parlamentar. Mas o que está em causa é uma questão mais profunda: quem representa politicamente as mulheres?A eleição de Hilton para presidir à Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados foi celebrada por alguns como um avanço da inclusão. Mas para muitas mulheres provocou desconforto e indignação. Não por animosidade pessoal, mas porque as mulheres sabem, pela sua história e pela sua experiência, que as suas lutas nasceram de uma realidade concreta: o sexo biológico.Ao longo de séculos, as mulheres tiveram de conquistar direitos básicos precisamente porque nasceram mulheres. Foram excluídas da educação, da política, das artes, da autonomia económica e continuam a enfrentar desigualdades e violência que têm, como base clara, a diferença entre os sexos.Do ponto de vista biológico, o sexo humano é determinado pelos cromossomas. Indivíduos com cromossomas XX desenvolvem-se como fêmeas; indivíduos com cromossomas XY desenvolvem-se como machos. Nenhuma cirurgia ou tratamento hormonal altera essa realidade genética presente em cada célula do nosso corpo.Há fundamentalmente três casos em que há excepções: com a Síndrome de Klinefelter, a Síndrome de Turner e a Síndrome de Insensibilidade aos Androgénios (AIS, na sigla inglesa). Segundo a World Health Organization, o National Institutes of Health/Genetic and Rare Diseases Information Center, a Orphanet e os Centers for Disease Control and Prevention, essas síndromes afectam, respectivamente, 0,1 a 0,2% dos homens, 0,04% das mulheres, e 0,001-0,005% das pessoas. Reconhecer este facto científico não deveria ser considerado ofensivo. É simplesmente reconhecer a base material sobre a qual se construiu a luta histórica das mulheres.Quando mulheres afirmam que desejam ser representadas por quem partilha a sua realidade biológica, são frequentemente acusadas de discriminação. No entanto, muitas sentem que o que está a acontecer é precisamente o contrário: uma nova forma de silenciamento. Uma nova espécie de machismo.O debate contemporâneo sobre género colocou duas realidades em tensão: a identidade individual e a categoria política das mulheres. Ignorar qualquer uma delas empobrece o debate. Mas exigir que as mulheres renunciem à definição biológica da sua própria condição para evitar polémica é absurdo. As mulheres lutaram durante gerações para que a sua voz fosse ouvida. Não é razoável que, no momento em que procuram defender o significado dessa luta, lhes seja pedido que se calem. Muito menos que aceitem, sem lutar, que a Loretta dos Monthy Python tome o seu lugar. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico