No ano em que se assinala o bicentenário da morte de D. João VI, os Palácios Nacionais da Ajuda e de Queluz acolhem, a 13 e 14 de Maio, o colóquio internacional “Entre o Absolutismo e o Liberalismo: Arte e Cultura ao tempo de D. João VI (1767–1826)”. Esta iniciativa afirma-se como um dos mais relevantes momentos de reflexão historiográfica e patrimonial dedicados à complexa transição entre o Antigo Regime e a emergência da modernidade liberal no espaço luso-brasileiro. Mais do que uma evocação comemorativa, este encontro científico propõe uma revisitação crítica de um período de charneira da História portuguesa, marcado por profundas mutações políticas, estéticas e culturais. A figura de D. João VI, durante décadas aprisionada entre leituras caricaturais ou excessivamente ideologizadas, surge aqui reenquadrada à luz de novas abordagens historiográficas, capazes de reconhecer a densidade cultural e diplomática do seu reinado, bem como a singularidade da corte joanina enquanto espaço de negociação entre tradição e renovação.Este colóquio reúne especialistas de diversas áreas: história da arte, museologia, história política, estudos culturais e património, só para mencionar algumas, e visa debater temas que vão do mecenato régio às artes decorativas, da circulação atlântica de objectos e modelos culturais à música, joalharia, falerística e sociabilidades cortesãs. Entre as novidades mais significativas destaca-se precisamente esta perspectiva interdisciplinar e trans-nacional, que permite compreender o reinado joanino não apenas no contexto português, mas enquanto fenómeno atlântico, profundamente ligado ao Brasil e às transformações globais do início do século XIX. A escolha dos dois palácios não é simbólica apenas do ponto de vista patrimonial: Ajuda e Queluz constituem lugares matriciais da memória política e artística deste período, funcionando como arquivos vivos de uma época situada entre o esplendor tardio do barroco, a consolidação do neoclassicismo e os primeiros sinais da sensibilidade romântica. A realização do primeiro dia do colóquio na data do nascimento de D. João VI reforça, aliás, a dimensão evocativa de uma iniciativa que procura devolver espessura histórica a um monarca decisivo na preservação da soberania portuguesa durante as invasões napoleónicas e na redefinição do eixo imperial luso-brasileiro.Num tempo em que o debate sobre identidade, património e memória histórica ganha renovada centralidade, este colóquio representa também um exercício de maturidade cultural: o de revisitar criticamente o passado sem simplificações ideológicas, reconhecendo na cultura um dos mais sólidos instrumentos de compreensão histórica.