Entre as atribulações correntes da tecnologia – entenda-se: da relação dos humanos com as componentes tecnológicas das suas existências – eis um episódio banal que, em boa verdade, qualquer cidadão com acesso a telemóveis ou computadores pode viver. Assim, para tentar marcar o arranjo de um automóvel, o consumidor telefona e cumpre o ritual de identificar aquilo que pretende (através de um click num determinado número); na sua inocência arcaica, espera ouvir uma voz humana minimamente disponível para lidar com o seu problema. O certo é que quem responde é uma voz artificial: “Olá, bem-vindo à [nome da empresa]. Sou a [nome feminino], a sua assistente virtual.”Que responder? E, sobretudo, como responder? É certo que a voz transporta um aviso que se quer apaziguador da nossa confusão: “Caso não pretenda que esta comunicação seja registada, poderá terminar esta chamada a qualquer momento.” Mas rapidamente descobrimos que aquilo que se espera de nós é a aplicação de uma linguagem cifrada sem as nuances que fazem (ou faziam) a verdade da comunicação. Não adianta começar por dizer que “começou a aparecer fumo de uma zona do motor difícil de identificar”... A ligação não avança, já que é suposto dizermos qualquer coisa estereotipada como “comando das válvulas não funciona” ou “correia de distribuição desgastada”. Ou ainda (é a minha preferida, embora não compreendendo o que estou a dizer): “Cárter a perder óleo.”. Tão ou mais complicado é falar com aquela marca de roupa que nos seduziu no seu site, a ponto de encomendarmos uma peça sem certeza sobre o tamanho adequado. “Por favor, diga-me em que posso ajudar” – a conversa até parece começar bem. Mas logo depois, repete-se o ritual: “Olá, sou [nome feminino], estou aqui para ajudar. De que é que precisa hoje?” A pergunta parece eivada de uma bizarra disponibilidade, mas o mal-estar cedo acaba, uma vez que a escuta não está preparada para as palavras do pobre humano que apenas pretende o número maior da mesma peça.Sobre este mundo de assistências no feminino, ainda não dei conta de qualquer análise militante que arriscasse lidar com as suas singularidades – por uma vez, seria interessante sairmos das generalizações simbólicas e enfrentar o mais difícil, isto é, os suaves sobressaltos do quotidiano. Seja como for, vale a pena citar uma mulher cuja escrita continua a mobilizar-nos, ainda que não tenha tido o privilégio de lidar com as pequenas monstruosidades do consumo deste glorioso século XXI: “O poder burocrático, o poder anónimo do burocrata, não é menos despótico por ‘ninguém’ o exercer. Pelo contrário, é ainda mais temível, porque ninguém pode falar com esse ‘ninguém’ ou pedir-lhe seja o que for” (Hannah Arendt, A Promessa da Política, tradução de Miguel Serras Pereira – edição Relógio d’Água, 2007).."Neste mundo de 'assistentes virtuais', como é possível falar com alguém que não existe como corpo?".Dito de outro modo: não está lá ninguém, nem mesmo o burocrata que pôs o sistema a funcionar. Ou se quisermos sublinhar o paradoxo: quem lá está é ninguém. Há uns anos, a propósito de uma questão do mesmo teor, Jean-Luc Godard insurgia-se contra o automatismo jornalístico que tende a noticiar as convulsões da economia global referindo como causa “os mercados”. Dizia ele: “Os mercados são pessoas.”De 2001: Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968) até Her - Uma História de Amor (Spike Jonze, 2013), o cinema tem encenado humanos a dialogar com computadores – no masculino, no primeiro caso, no feminino, no segundo. E convém reparar que os exemplos citados não poderão ser entendidos como banais discursos de demonização das máquinas. O que tais filmes problematizam é o súbito apagamento do outro como corpo, ainda que a ausência de corpo não exclua (antes pareça intensificar) alguma forma de sensualidade.Arendt citava a máxima de Sócrates: “Sê como gostarias de aparecer diante dos outros.” A questão é que o outro não está lá, mas fala comigo.