Que “digitalização” é esta?

Paulo Guinote

Professor do Ensino Básico

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No debate, se assim se pode chamar a uma sobreposição de narrativas que nem se tentam entender entre si, sobre o processo de digitalização dos exames do Ensino Secundário, a ausência mais evidente foi a da definição do que se entende, em concreto, por “digitalização” e, por extensão, pela anunciada “transição” digital” na Educação.

Não vale a pena revisitar o que falhou e porquê, e muito menos por causa de quem, porque quem tem essa informação invocaria uma qualquer 5.ª emenda nacional para não a divulgar, mas tem interesse perceber-se o que se queria fazer ou, mais importante, qual o rumo que se pretende seguir – se o digital é apresentado como o único possível.

Consultando o programa do XV Governo Constitucional para a área da Educação Não-Superior apenas encontramos formulações vagas. Garante-se que “será consolidada a implementação do novo modelo de avaliação externa, tanto no Ensino Secundário, como no Ensino Básico” (p. 162), mas nada sobre o seu aspecto digital, assim como se promete que o Governo “irá prosseguir o esforço de reforço dos equipamentos informáticos e infraestruturas de conectividade, de forma a criar condições para que os alunos e os professores beneficiem, de forma plena e em condições de equidade, do potencial da digitalização”, mas nada se diz sobre o que é essa “digitalização” e como se aplica na avaliação externa dos alunos, remetendo-se uma “reflexão sobre o digital ao serviço da Educação” para uma “Estratégia para o Digital na Educação” que, como é prática comum, ficou a cargo de um grupo de trabalho criado pelo Despacho 10945/2025, que deve ter os seus trabalhos concluídos no final deste ano civil.

Ou seja, não existe qualquer tipo de orientação ou conceptualização do que deve ser o “digital ao serviço da Educação” e muito menos uma visão integrada sobre uma “digitalização” da avaliação externa ao longo da escolaridade obrigatória. Pelo contrário, existem medidas avulsas e contraditórias sobre o uso das tecnologias digitais nos espaços escolares, elogiando-se as suas potencialidades, mas limitando o seu uso, por via da proibição dos smartphones no Ensino Básico. Investem-se milhões em Centros Tecnológicos Especializados, mas não há dinheiro para a manutenção dos equipamentos portáteis distribuídos às escolas e alunos. Tudo parece funcionar na base de um casuísmo que revela falta de uma visão e o mero objectivo de sacar uns generosos subsídios europeus.

A “digitalização” arranca sem estratégia e não passa de um simulacro, pois os seus efeitos mais úteis para as escolas e as aprendizagens dos alunos ou têm efeitos muito limitados (a burocracia continua de boa saúde, com a versão digital a acumular-se à analógica) ou padecem de enormes equívocos, como no caso dos exames.

Por “digitalização dos exames” não se pode entender a mera fotocópia digital dos exames físicos, feitos pelos alunos no mesmo suporte e moldes de sempre. Ou seja, para os alunos, nada mudou, para além de um labirinto de “folhas de continuação”.

A quem diz (incluindo professores) que este processo facilitou o trabalho e o rigor da classificação, talvez seja interessante apresentar o acréscimo dos pedidos de reapreciação e o elevado número de classificações alteradas nesse processo. Nem sempre conforto pessoal e qualidade caminham de mãos dadas.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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