Confirmada a sua vitória sobre a congressista moderada Haley Stevens nas primárias democratas para o Senado no Michigan, Abdul el-Sayed logo olhou para a frente. “Amanhã começamos a fazer as pazes. Há muito mais coisas que nos unem do que as que nos separam”, afirmou o antigo responsável pela Saúde de Detroit, que fez campanha com promessas de Medicare para todos, mais impostos para os mais ricos e a abolição do Serviço de Imigração e Alfândega (o famigerado ICE).Apesar de preferir descrever-se como capitalista do que como socialista, e de não ter recebido o apoio dos Democratic Socialists of America, a organização que impulsionou a vitória de Zohran Mamdani na corrida a mayor de Nova Iorque, El-Sayed é o último candidato progressista a derrotar um rival moderado em primárias democratas antes das intercalares de 3 de novembro. Esta guerra interna entre as duas alas do Partido Democrata é um sinal claro da deriva em que a formação se encontra. Sem um líder claro, ainda a recuperar da derrota de Kamala Harris nas presidenciais de 2024, o partido do burro (o seu símbolo, que nasceu como insulto ainda no século XIX e acabou por identificá-lo nos cartoons políticos) parece cansado de apostar em candidatos moderados, apenas para os ver derrotados pelos adversários de um Partido Republicano cada vez mais à imagem do presidente Donald Trump.Mas será a via radical a opção certa para conseguirem recuperar o controlo de, pelo menos, uma das Câmaras do Congresso no outono? Nada parece menos certo. Mas, para já, o que vimos após a vitória de El-Sayed foi a liderança democrata sair em apoio do homem que, na campanha, teve ao lado duas das figuras que melhor representam a ala progressista (alguns dirão de extrema-esquerda) do Partido Democrata: Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) e Bernie Sanders. Aos elogios da congressista de Nova Iorque e do veterano senador do Vermont (antigo candidato presidencial, que até é, formalmente, independente) juntaram-se os apelos à “união para um objetivo comum” do líder da maioria democrata, Chuck Schumer, e de Kirsten Gillibrand, líder da campanha democrata para o Senado. Do lado republicano, a escolha de progressistas pelos democratas está a ser vista como uma boa notícia, sobretudo nos estados mais moderados, onde um candidato radical pode ser menos apelativo na hora do voto. O próprio Trump saudou a escolha de El-Sayed com um “excelentes notícias para o Partido Republicano”, chamando-lhe “um falhado comunista que odeia os judeus e Israel”.Em entrevista ao DN em julho, o congressista estadual Tony Cabral alertava que “falar nos EUA de comunismo é só Trump a tentar influenciar a opinião pública contra democratas”. E o eleito lusodescendente do Massachusetts recordava que “estes, que Trump chama de comunistas, talvez na Europa fariam parte do Partido Socialista”.Em novembro saberemos se a estratégia democrata vai ou não funcionar. Mas, e se funcionar, podemos esperar uma AOC candidata às presidenciais em 2028?