Quando a política deixa de servir as pessoas

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A política tem um único propósito. Servir as pessoas.

Quando não as serve, perde o propósito e sobra apenas o espetáculo. Talvez seja essa uma das razões principais pelas quais os portugueses se desligam da política e dos políticos. Mas é também por este critério que os dois anos de Governo devem e podem ser avaliados.

O veredicto é duro. Em cinco áreas fundamentais, o país anunciado na narrativa oficial não coincide com o país real onde as pessoas vivem.

Na imigração o Governo prometeu ordem e entregou desordem, esquecendo que o próprio PSD defendeu anos a fio a extinção do SEF e pouca iniciativa deixou ter na abertura de concursos para o corpo de inspetores do então SEF ao longo do anos.

Sei bem do que falo. A ignorância com que alguns responsáveis agora falam esquece que um serviço público de excelência, mesmo que um serviço de segurança, dificilmente sobrevive se não for renovado ao longo dos anos sem ficar descapitalizado do seu fator mais importante: as pessoas.  

Memória curta, dirão uns. Consequência da política de portas abertas, dirão outros, consoante o lado em que momentaneamente se encontram.

Em boa verdade, nada disto importa, se nada for entregue às pessoas!

Claro que o processo não foi isento de erros, todos sabemos, mas acabou-se com a manifestação de interesse sem criar alternativas em tempo útil, e são os próprios patrões – não a esquerda ou o centro moderado – a denunciar a falta de 80 mil trabalhadores na construção, num país que precisa de executar o PRR e responder à crise da habitação.

A Lei dos Estrangeiros foi chumbada pelo Tribunal Constitucional e o "não é não" ao Chega dissolveu-se em votações sucessivas com a extrema-direita, fazendo com que muitos, como eu, não se sintam representados naquele que seria o seu espaço natural.

No meio disto, centenas de milhares de pessoas continuam ainda presas nas pendências e burocracias da AIMA e o caos, ao fim de dois anos, está muito longe de estar resolvido. Em consequência, os temas da sustentabilidade da Segurança Social voltarão rapidamente à agenda, mas desta vez pela mão dos políticos da direita e do centro direita.

Na Saúde prometeram um plano de emergência de curto prazo. As urgências de Obstetrícia e Pediatria continuam a fechar. Faltam médicos de família, continuam as listas de espera e os atrasos de resposta do INEM provocam fatalidades inaceitáveis.

É certo que a responsabilidade política foi "assumida" em abstrato, é também certo que a ministra continuou blindada como uma espécie de “para-raios” do Governo e que as ambulâncias lá acabaram por ser compradas. Mas isto não é política de Saúde, é mera gestão de danos, e infelizmente de má qualidade.

Na Justiça os sindicatos afirmam que faltam 1800 oficiais de justiça e que há comarcas com défices de pessoal de 40% a 60%, além de carreiras com sete anos de tempo congelado e salários de entrada de 800 euros.  Mesmo que pudesse não ser exatamente assim, continuamos com greves sucessivas, tribunais fechados, atrasos crónicos, milhares de julgamentos adiados – e salas de audiência onde se adia a Justiça por causa do calor e comunicações indecifráveis para qualquer português.  Não há cultura de concertação com os operadores de justiça e sem eles pouco ou nada mudará.

A "reforma da Justiça" do Governo continua a ser, no essencial, uma reunião de trabalho.

As tempestades de janeiro e fevereiro de 2026 mataram pelo menos 19 pessoas e causaram 5,3 mil milhões de euros de prejuízos. O Governo respondeu com o que sabe fazer: anúncios aos milhares de milhões e logo para a “terça-feira seguinte”. Meses depois, para vergonha de quem governa, os apoios chegam "a conta-gotas" e havia ainda municípios sem uma única casa avaliada.

Para quem perdeu a casa, burocracia não é solidariedade, é abandono. Hoje ainda há pessoas a quem os apoios não são mais do que uma mera miragem no meio de um tormento pessoal e familiar que dificilmente conseguimos imaginar e que, pelos vistos, temos dificuldade em resolver. Dirão, uma vez mais, que é a dita burocracia.

Os exames nacionais de 2026 condensam um pouco de tudo isto. Parece uma comédia com contornos trágicos.

Um enunciado de Português decalcado de um manual de editora – "falha objetiva" admitida pelo ministro. Depois, o colapso da correção digital: convocatórias de professores falecidos, docentes a corrigir disciplinas que nunca deram, plataformas em baixo.

Durante semanas, o ministro garantiu que nenhum aluno seria prejudicado e chamou "falsas" às denúncias dos professores. A 3 de julho, fez o que jurara não ser preciso: adiou as notas e a segunda fase, virando do avesso as férias de milhares de famílias, chamando-as (ou melhor, insultando-as) como “imprudentes”. 

Curioso que os problemas nunca sejam da tutela, mas sim sempre de terceiros.

Lamentavelmente, o fio condutor é sempre o mesmo.

O anúncio vale mais do que a execução, a culpa é sempre de outros, o erro só se admite quando já não há como negá-lo. O aluno à espera da pauta, a família com a casa destelhada, quem liga para o 112, o oficial de justiça com o salário congelado. Todos eles fazem a mesma pergunta: para que serves, se não me serves?

Quando a política falha às pessoas não perde só o propósito. Perde as pessoas. Cada promessa defraudada alimenta a descrença e fortalece os extremos que o Governo diz combater, mas com quem vai aprovando leis.

Estabilidade sem coragem de decidir e sem servir as pessoas não é nada. É vazio. É oco.

Era bom que os nossos governantes tivessem noção que a política ou serve quem a mandatou ou não serve para rigorosamente nada.

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