Quando a arte investiga o presente, a sociedade ganha futuro

Érica Faleiro Rodrigues

Curadora da exposição ARE 2026 — Terrenos Instáveis: Linhas de Fuga na Investigação Artística - Universidade Lusófona / FilmEU / WIRE

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Durante demasiado tempo, habituámo-nos a colocar a arte num lugar secundário: o da ilustração, do comentário tardio, do adorno cultural. Mas a investigação artística faz exatamente o contrário. Entra nas fraturas do presente, trabalha sobre elas e devolve-nos novas formas de leitura. Não chega depois do mundo. Enfrenta-o enquanto ele acontece. Não ilustra o presente: interpreta-o, confronta-o e produz conhecimento com impacto real na sociedade e na cultura. Num tempo marcado por instabilidade climática, tecnológica, social e política, isso conta mais do que nunca.

A prática artística no ambiente universitário produz conhecimento relevante: um conhecimento crítico, sensível e experimental, capaz de circular para lá do espaço académico e de interpelar a vida pública.

As obras apresentadas nesse contexto cruzam território, memória, deslocação, arquivo, ecologia, transformação urbana, som, imagem e tecnologia. O que as une não é um estilo comum, mas uma mesma exigência: pensar o presente sem o simplificar. Onde outros discursos fecham depressa, a investigação artística abre perguntas. Onde a linguagem pública se apressa, ela restitui tempo, atenção e espessura.

Esse contributo tem consequências reais. Tem impacto na forma como a sociedade debate os seus dilemas, mas também na forma como as indústrias culturais e criativas se reinventam. Sem experimentação, sem risco e sem pensamento artístico, não há verdadeira renovação de linguagens, formatos ou modos de relação com os públicos.

Por isso, valorizar a produção de conhecimento artístico não é um luxo nem um gesto decorativo. É reconhecer que há saberes que só a arte consegue tornar visíveis.

Quando a arte investiga o presente, não se limita a refletir a realidade. Ajuda-nos a compreendê-la, a questioná-la e a imaginar o que pode vir a seguir.

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