Qual é a história política de Carlos Brito? 

Pedro Tadeu

Jornalista

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Carlos Brito foi militante do PCP durante quase 50 anos, mas deixou de o ser há mais de 25 anos. Com toda a enorme admiração que tenho pela pessoa que ele foi; com todo o respeito pela forma heróica com que ele lutou contra o fascismo (que me faz sentir pequenino); com todo o mérito que teve enquanto deputado constituinte e líder parlamentar; com toda a ótima relação pessoal, próxima, diária, amiga, que criámos entre 1992 e 1996 quando ele foi meu diretor no jornal “Avante!”; com todo o prazer que tive quando, depois disso, nos vimos algumas vezes; com tudo o que de bom há a dizer sobre este homem inteligente, sensível, talentoso e culto, não posso deixar de sublinhar isto: com ou sem razão, com ou sem motivo, Carlos Brito deixou o meu partido há muito tempo e um terço da sua vida política foi feita fora do PCP – e isso, politicamente, é relevante.

Sim, Carlos Brito está na história do PCP e essa história não pode nem deve ser apagada, deve ser sublinhada, sobretudo em tempos de tentativa de apagamento dos horrores do fascismo português ou de transformação da Revolução dos Cravos num processo de loucura coletiva. Mas na história política de Carlos Brito também não pode ser apagado o percurso que ele fez depois de abandonar o PCP.

Quando Brito saiu do partido, no ano 2000, não teve um comportamento democrático.

Brito lutou pelas suas ideias dentro do PCP, teve meios e oportunidades de as divulgar e de as defender a partir de uma posição interna privilegiada, uma posição de poder. Teve, ainda, a seu favor, o contexto político de recontextualização do ideal comunista e um enorme interesse do jornalismo pela luta interna do PCP, que favorecia as posições dos chamados “renovadores”, mas que esconjurava os outros militantes com o palavrão “ortodoxos”.

Carlos Brito, com toda a legitimidade, foi à luta pela modificação do que achava estar errado, mas perdeu essa luta. Não perdeu por poucos, perdeu por muitos: a esmagadora maioria dos militantes comunistas rejeitou claramente essas ideias. Carlos Brito não foi democrático ao não se conformar com a derrota, ao não aceitar a posição da maioria. Cheguei a dizer-lhe isso e a lembrar-lhe aqueles que, tendo tomado posições semelhantes à sua, decidiram que era mais útil para a democracia portuguesa continuarem a militância no PCP.

Quando saiu, provavelmente, Brito sentiu-se magoado, desrespeitado, sobretudo quando lhe aplicaram uma sanção disciplinar. É humano e compreensível, todos temos ego, e isso não o torna melhor ou pior pessoa, mas não lhe dá mais razão política – na verdade, as ideias que Brito defendeu foram aplicadas, depois do fim do bloco soviético, em inúmeros partidos comunistas e quase todos colapsaram rapidamente. O projeto de Carlos Brito e dos renovadores teria morto quase imediatamente o PCP – 26 anos depois, isso está comprovado na vida real – e as razões da atual decadência eleitoral dos comunistas só muito lateralmente terão a ver com o debate desse tempo.

Quando vejo chusmas de insultos ao PCP por causa de um curto comunicado onde, objetivamente, só se elogia Carlos Brito, vejo sobretudo um ataque político abusivo e hipócrita. Sim, acho que o comunicado poderia ter sido mais generoso, menos racional e mais emocional, mas, caramba, foi respeitoso para com este grande português e, o que é compreensivelmente mais importante para o PCP, respeitou os outros grandes portugueses que, ao contrário de Brito, decidiram continuar a militar no partido mesmo tendo, no passado, perdido as suas batalhas políticas.

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