Primeiro os imigrantes, depois as pessoas trans… e a seguir?

Publicado a

Há frases e citações que ecoam através dos tempos para nos alertarem para os riscos do silêncio cúmplice.

Assim é com a célebre advertência de Martin Niemöller, o pastor luterano alemão simpatizante do nazismo, que virou crítico e acabou num campo de concentração.

“Primeiro vieram atrás dos socialistas, e eu fiquei calado porque não era socialista.

Então, vieram atrás dos sindicalistas, e eu fiquei calado porque não era sindicalista.

Depois, vieram atrás dos judeus e eu fiquei calado, porque não era judeu.

Agora vieram-me buscar a mim, e já não há ninguém para me defender.”

Esta declaração, às vezes erroneamente chamada de poema, ilustra como poucas a forma de atuação de extrema-direita e de como uma política de divisão entre as pessoas e de ódio contra o outro e o diferente leva inevitavelmente à nossa própria desproteção.

Em Portugal, a ideia das linhas vermelhas à extrema-direita é conversa do passado. O que temos hoje é sobretudo uma direita canibalizada tematicamente por uma agenda extremista e que irá, paulatinamente, tocar vários setores da sociedade, sempre com a mesma lógica: retirar direitos.

Começou com os imigrantes. Sob o pretexto de fechar as “portas escancaradas”, o PSD tornou quase impossível a imigração regular e documentada para o nosso país. Em alternativa apresentaram mecanismos, como o da via verde, que não têm tido resultados palpáveis.

Entretanto a economia, que depende da nossa capacidade de atrair mão de obra, fica estagnada, como ficarão também as obras de recuperação do país após as tempestades.

A mira desloca-se agora para o ataque aos direitos das pessoas trans, especialmente as mais jovens. Seguindo a já conhecida obsessão da extrema-direita com este tema - basta recordar as casas de banho mistas que nunca existiram -, o PSD decidiu apresentar um projeto de lei que volta a tratar as pessoas trans como doentes, que torna impossível iniciar um processo de afirmação de género antes dos 18 anos e elimina a proteção do direito à utilização do nome social. Ou seja, retira direitos e vai atrasar irremediavelmente a vida dos, e das, jovens trans no nosso país.

É a velha cartilha que tem sido seguida por todos os partidos de extrema-direita do mundo. Com a diferença que no nosso país está a ser adotada pelos partidos ditos de centro-direita.

O que virá a seguir? Será o ataque aos trabalhadores com um pacote laboral que não oferece nada de novo senão mais precariedade e baixos salários? Serão os direitos das mulheres e direitos reprodutivos como o aborto?

Portugal não precisa desta política de fabricação de inimigos. Ela é reflexo de políticos fracos, cuja única forma de se manterem no poder é através da divisão. Precisamos, sim, de memória. E de dignidade para todas as pessoas.

E precisamos sobretudo de não ficar em silêncio perante a indignidade e a política do ódio e da divisão. Caso contrário, podemos olhar à volta daqui a uns tempos e perceber que não sobrou ninguém.

Diário de Notícias
www.dn.pt