É durante os nossos momentos mais escuros que devemos concentrar-nos para ver a luz. Aristóteles Destacado filósofo da Grécia Antiga, discípulo de Platão e um dos pensadores mais influentes da história do Ocidente (384 a.C. - 322 a.C.) Desde 2020, Portugal foi atingido por vários fenómenos inesperados, com repercussões significativas no tecido social e económico e, em particular, na vida e saúde das pessoas. À escala global, entre 2020 e 2023, vivemos 1150 dias marcados pela pandemia de covid-19, que nesse período foi responsável por 26.655 mortes no nosso país. A nível europeu e, sobretudo, ibérico, no dia 28 de abril de 2025, fomos vítimas de um apagão de eletricidade que atingiu praticamente todo o território de Portugal continental durante pelo menos 10 horas, bem como Espanha e ainda parte da Europa. Finalmente, a nível nacional, no início do ano e também num dia 28, neste caso de janeiro de 2026, fomos apanhados de surpresa pela magnitude da tempestade Kristin, que deixou marcas significativas ainda persistentes na região de Leiria.Neste intervalo de seis anos, é possível retirar pelo menos duas grandes conclusões destes acontecimentos. A primeira é que, sendo estes fenómenos inevitáveis, é necessário saber aprender com eles e estar preparado, tendo presente que a autonomia favorece a resiliência e a capacidade de resposta. A segunda conclusão evidencia a extraordinária importância do setor da Saúde.O papel determinante da Saúde e, em especial, do Serviço Nacional de Saúde foi amplamente realçado nas análises realizadas no decurso da avaliação do apagão de 28 de abril de 2025, cujo primeiro aniversário se assinalou na semana passada. Refira‑se que este apagão foi descrito como o mais grave incidente energético europeu em quase duas décadas.Se foi dado um grande destaque à autonomia elétrica dos hospitais e à necessidade de implementar planos de contingência, não podemos esquecer a importância dos cuidados de saúde primários e do forte incentivo, presente e futuro, à ambulatorização e domicilização dos cuidados de saúde. São exemplo disso os milhares de doentes com necessidade de suporte respiratório crónico que libertaram camas de internamento hospitalar para continuar os seus tratamentos em casa, com ventiloterapia mecânica invasiva e não-invasiva.Na sequência do apagão de 2025, foi publicado um estudo médico, a nível ibérico, que revelou lacunas graves na resposta aos doentes dependentes de terapias respiratórias diferenciadas em ambulatório, sublinhando a necessidade de assegurar registos atualizados e de reforçar protocolos de atuação e coordenação entre setores. Se não soubermos dar condições de tranquilidade e segurança a estes doentes no ambulatório, estaremos a comprometer a resposta futura de todos nós.